Você já experimentou dar um rolê no seu bairro para escutar os sons que vibram no entorno? Em linhas gerais, foi isso que o pesquisador Caio Dornelas fez no projeto Olinda Sonora. Antigo morador de Olinda e fundador da produtora 9 Oitavos, teve a ideia de fazer uma cartografia acústica da Cidade Alta alçando a sonoridade como patrimônio imaterial da cidade.

“Quando cheguei para morar nessa região eu tinha o hábito de caminhar guiado por sons, músicas que ouvia, espalhados naquele Sítio Histórico”, explica Caio. Naquela época, ensaios de bandas e orquestras, afoxés, o samba do GRES Preto Velho e os bares noturnos serviram de estímulo para o pesquisador conhecer os atalhos da Cidade Alta.

Pesquisa de designer olindense vira catálogo afetivo sobre a cidade

A ideia de transformar esse costume em projeto provocou em Caio a necessidade de ampliar o espectro sensitivo da escuta para melhor extrair os fragmentos da paisagem sonora olindense. “Tive mais atenção para outras camadas do som, os ruídos, os marcos sonoros, o sotaque das pessoas e como o vento e a arquitetura constróem a identidade da cidade”.

Interface da cartografia sonora com áudios geolocalizados. (Imagem: site do projeto)
Os guias de turismo são figuras emblemáticas na Cidade Alta. (Imagem: site do projeto)

Como era de se esperar, ao longo da investigação foi percebido que o território estudado não apresenta uma expressão sonora homogênea, mas diante de tanta variedade que o Sítio Histórico de Olinda pode proporcionar, a descoberta que mais chamou atenção do pesquisador na experiência chega a ser inusitada para as características do local:

“A camada de ruídos relacionados ao fluxo de carros nas ruas, um ruído que se agrava todas as manhãs, das 6h às 8h, quando as ladeiras se tornam atalhos para quem está atravessando a região norte da RMR até o centro do Recife”, revela.

O bloco da Pitombeira é tradição nas ladeiras de Olinda. (Imagem: site do projeto)
Reduto da boemia, o bar de Peneira fica localizado nos Quatro cantos. (Imagem: site do projeto)

Caio aponta para algumas contradições encontradas ao colocar a audição à frente dos outros sentidos. “Tive outro acesso à natureza de Olinda, ouvi uma cidade em confronto com uma série de fatores, em sua maioria econômicos, que insistem em não valorizar as vocações do Sítio Histórico, que são culturais, artísticas, turísticas, patrimoniais e boêmias”, explica.

Andanças à deriva

Caio Dornelas bateu perna para captar as sutilezas do cotidiano. (Foto: Gabriel Santana)

A discrição do corpo do pesquisador no território foi uma das estratégias para captar o som das ruas com menor intervenção possível, “modificando o mínimo possível quanto ao desenrolar natural das ações cotidianas”.

Vendedores ambulantes também fazem parte da paisagem sonora do lugar. (Imagem: site do projeto)
A presença de carros no Sítio Histórico para driblar o trânsito é um dos problemas urbanos enfrentados. (Imagem: site do projeto)

Ao se permitir captar a cartografia sonora de Olinda, o pesquisador perambulou por quatro meses, a pé, pelo Sítio Histórico de Olinda, coletando informações, detalhes e fragmentos de som, apenas movido pela curiosidade.  Para apresentar o resultado das coletas geolocalizadas no site, Caio definiu as seguintes tipologias:

 ? Sons envolventes: “…os pneus, os pássaros, o mar, o vento, o burburinho”

Marcos Sonoros: “…as buzinas, os sinos, os apitos”

Elementos musicais: “…os pedaços de uma cidade boêmia, que exaspera música”

Fonologia: “…vozes de seus habitantes, dos ambulantes, dos vendedores”.

Segundo o pesquisador, o próximo passo do projeto é ampliar o acervo já catalogado e disponibilizar o resultado da coleta nas versões de aplicativo mobile.

“Um outro passo, a médio e longo prazo, é ampliar essa leitura sonora do Brasil com recorte nas cidades históricas, uma vez que já temos a tecnologia desenvolvida e um conceito bem maduro de interação com o usuário”, prevê.

Para acessar: www.olindasonora.com