O afeto como guia. Os caminhos trilhados por Renata Paes (27) ao lado da família inspiraram o desenvolvimento de uma pesquisa sensível sobre a Memória Gráfica da Arquitetura de Olinda, que resultou em um catálogo capaz de – ao mesmo tempo – despertar lembranças de infância e revelar processos de degradação que desrespeitam a história da cidade.

Filha dos arquitetos preservacionistas Nazaré Reis e Antenor Vieira, um dos grandes responsáveis pelo título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade de Olinda, a designer Renata Paes é olindense e mora na Cidade Alta há seis anos. “O meu maior desejo é que esse catálogo possa virar objeto de educação patrimonial”, revela entre um gole e outro de café, em entrevista cedida ao PorAqui.

Olinda: patrimônio do grafite e do pixo

PorAqui: Por que você escolheu Olinda como objeto de estudo?

Olinda, né? Por conta da minha relação afetiva com a cidade, meus pais como arquitetos preservacionistas influenciaram esse meu olhar. Desde pequena eles levavam eu e meu irmão para caminhar e no trajeto meu pai costumava contar histórias sobre os lugares.

Com o tempo, de uns 10 anos pra cá, os passeios passaram a ser por Olinda. Houve um tempo também que meu pai trabalhava na Prefeitura, então eu vinha muito aqui quando criança.

Ladrilho hidráulico (área externa). Foto: Thiago Duarte
Ladrilho hidráulico. Foto: Thiago Duarte.

PorAqui: O que mais lhe encanta na cidade?

São os elementos decorativos da arquitetura, os desenhos, as cores, os adornos das fachadas. Criei uma verdadeira paixão por isso, fiquei viciada, é difícil parar. Quando eu vejo um cobogó tapado com cimento, eu já fico puta.

Com a pesquisa o meu direcionamento de olhar mudou, eu costumava passar nas fachadas olhando para o meio, agora eu presto mais atenção nos detalhes da cidade.

PorAqui: O que menos lhe encanta na cidade?

Os processos de degradação me dão uma tristeza. Como me aproximei com a minha pesquisa, dá pra entender o quão valiosa a preservação é. E esse processo (de degradação) vai se instaurando e com isso os registros e memórias vão se perdendo. A arquitetura conta muito sobre a história de Olinda.

Em Olinda existe uma falta de educação patrimonial, nas escolas não existe nenhum programa nesse sentido.

Azulejo em fachada. Foto: Thiago Duarte
Detalhe azulejo. Foto: Thiago Duarte

PorAqui: Qual foi a principal motivação para criar o trabalho Memória Gráfica da Arquitetura de Olinda?

Desde sempre meu pai contava a história do cobogó e queria fazer uma pesquisa sobre esse elemento. Ele sempre apontava na rua os ladrilhos hidráulicos, os cobogós, por exemplo. A partir do lançamento do livro Cobogó de Pernambuco, publicação que meu pai foi um dos autores, me veio a ideia.

Na hora de definir o tema da minha pesquisa, fiquei reticente, pois teria que acessar as memórias do meu pai. Falar sobre preservação em Olinda e não ter as reflexões dele seria impossível. Era uma coisa que eu já estava imersa e ainda não tinha percebido.

PorAqui: Quais os caminhos trilhados em seu mapeamento afetivo?

Foram feitos dois mapeamentos. O primeiro chamado Alcance dos olhos fiz registros de celular, saí meio à deriva, a partir de um roteiro sentimental, fotografando tudo que achava interessante. Depois escolhi os quatro elementos para o catálogo: gradil, cobogó, azulejo e ladrilho hidráulico. 

O segundo mapeamento chamei De portas abertas, foi quando tive a oportunidade de entrar na casa das pessoas e houve uma troca de visões afetivas entre os donos das casas e eu. Eles me indicavam outros lugares para ir. A partir de uma gama de 233 fotos, fiz uma seleção afetiva e escolhi 45 para compor o catálogo.

Gradil. Foto: Thiago Duarte
Gradil detalhe. Foto: Thiago Duarte

PorAqui: Quais as principais descobertas do trabalho?

Foi percebido que a memória gráfica da cidade é expressada a partir do cobogó, do ladrilho hidráulico, do azulejo e do gradil. Além disso, foi importante entender como se dão os processos de degradação desses elementos. Perceber que se você cria uma relação afetiva com eles, você passa a preservá-los.

PorAqui: De que forma você quer dar continuidade ao trabalho?

O meu maior desejo é que esse catálogo possa virar um objeto de educação patrimonial. Quero aumentar a quantidade de lugares que visitei, de forma mais consciente, com calma e mais tempo.

Ampliar o raio de atuação, acessar outras ruas, entender melhor os grafismos, acho que eles ainda têm muito o que dizer. Quero também dar continuidade com uma pesquisa de mestrado.

Detalhe cobogó. Foto: Thiago Duarte.
A histórica Caixa d’água é formada por cobogós. Foto: Thiago Duarte

Pesquisa

Fruto de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Design, a pesquisa foi desenvolvida na Universidade Federal de Pernambuco (Campus Caruaru) e teve orientação da Profa. Paula Valadares e co-orientação de Amélia Paes.

Informações: renatapaesvieira@gmail.com