Olindense de todo coração e apaixonada por poesia, eu acabei recorrendo à biblioteca da Universidade Católica de Pernambuco, na cidade-irmã Recife, para estudar. Entre uns livros de Direito e Administração Pública, necessários para as provas de emprego público que farei, alimento minh’alma dando umas singelas passadas pelas sessões de Literatura da biblioteca.

Eis que um dia, bulindo e sonhando entre os livros de poesia, me deparo com um intitulado Poética Olindense. Na mesma hora, esses olhos brilham e meu coração agarra o livro mais que minhas mãos. Desejo investigá-lo. Como nunca escutei falar dele? Como assim existe uma Academia Olindense de Letras?

Textículos de Mary: música, subversão e atitude made in Olinda

Pesquiso na internet sobre o livro e não encontro muito, ou quase nada. Investigo com minhas próprias mãos: o livro é uma coletânea de poesias, cantorias populares, hinos, sátiras, acrósticos, pregões, serenatas, entre outros, históricas, românticas e populares, escritas sobre Olinda por diferentes autores ao longo dos mais de 480 anos em que é celebrada.

Foi idealizado pelos integrantes da Academia Olindense de Letras, Olímpio Bonald Neto e Everaldo de Holanda Azevedo, no ano de 1981.

Apesar de ter sido compilado na década de 80 e conter trabalhos de décadas e séculos anteriores, algumas poesias me fazem ver Olinda hoje, igualmente linda, alegre e boêmia.

Fico imaginando como meus antepassados curtiram Olinda da mesma forma que eu faço agora. E das coisas que, felizmente, ainda não mudaram de lá pra cá.

Logo na entrada do livro, dou de cara com a seguinte poesia que me faz ter este devaneio:

Olinda verão, com suas praias sempre cheias de sol, alegria dos olhos e da vida:
Preparadas as moças qual se fossem
Pra dançar
Vão correndo de leques e de anquinhas
Para o mar.

Olinda inverno, com suas ladeiras quase desertas lavadas pelas águas das chuvas, ora precipitando-se aos borbotões, ora escorrendo suavemente, melancolicamente, pelas calçadas que frades e freiras subiam ou desciam repassando as contas do rosário.

Olinda noite, com sua retretas, seus namoros e mexericos, e sobretudo suas serenatas ao som dos violões, às vezes sob a proteção condescendente e confidente do luar:

Olinda, à noite, na distância, é um ninho de vaga-lumes.
Ninho que parece erguido num promontório
para elevar da terra a tradição

(Esdras-Farias)

Como não notar as similaridades do ontem e do hoje, da nossa noite olindense, ainda cheias de “namoros e mexericos”, dos verões calorentos (mas com pouco banho no mar de Olinda agora) e desse inverno chuvoso (e cheio de alagados) que (infelizmente) somos acostumados?

Me delicio com o livro por inteiro, juntando o antes, o agora e o depois dessa terra mágica que, passa verões e alagados, e continua igualmente apaixonante. Vida longa a nossa Olinda!

Outras poesias:

OLINDA DAS MAXAMBOMBAS (Arruar – Mário Sette)

(Fins do Século XIX)

Olinda hoje tem fama,
Já teatro também tem.
E breve da Europa vem Companhia de cantores
Trazendo bem bons tenores.

OLINDA (Poemas – Haroldo Campos, 1915)

O gênio que a concebeu
Lutou com os monstros do mar…
Imitando prometeu
No roubou do fogo – em par,
Deu-lhe o sol no azul do céu
Além da luz do luar…