O lugar onde vivemos é tão somente aquilo que praticamos no dia a dia. Por isso, está em constante abertura para ser inventado a qualquer hora, se transformando muitas vezes em rotas de fuga, templos de proteção ou ambientes de força e luta.

A moradora da simpática Rua da Palha, na Cidade Alta, Andréa Soares (54), mais conhecida como Dea, sabe muito bem disso. Com um pequeno e bem cuidado quintal, ela desdobra relações de afeto e intimidade a partir de algumas alquimias culinárias.

Vai lá na venda de Seu Viana, fica na Rua da Palha, em Olinda

Foi por conta de uma famosa feijoada na panela de barro e na lenha que tive a honra de conhecer a cozinha informal de Dea. De antemão é bom deixar claro que não se trata de um restaurante, a experiência é mais profunda e se quiser apreciar o ritual é fundamental entrar em contato com a dona da casa antes.

? O telefone para contato vai no final da matéria.

Amigos de infância frequentam o quintal de Dea. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

“Aqui é o meu santuário, é a minha sala. Tenho minhas plantinhas, meu cantinho”, explica Dea sentada em uma rede azul clara e embalada ao som de Cartola. A música é colaborativa, só chegar e escolher uma música, mas os primos Rafa e Sandro Felix comandam oficialmente o som.

Divido uma cerveja com ela e ao mesmo tempo penso que para a maioria das pessoas que não se acomodaram no “conforto” dos privilégios, a reinvenção nos modos de fazer é a única saída.

O orelhão ela pegou no lixo da Focca e a arte é do amigo Xande Pernambuco. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
O teto verde tem como suporte um sistema de reciclagem de água da chuva criado por ela. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Nascida em Gravatá e filha da Vila COHAB, periferia de Olinda, Andréa viveu uma infância pobre. Sem completar os estudos formais, teve que se virar. “A escola não vai me ensinar o que eu quero. O que eu faço não se aprende lá”, diz apontando para os objetos do quintal.

Para onde você olhar tem planta. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
Objetos reformados por Dea também estão à venda. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
Porta-retrato e espelho improvisado com pedaço de janela. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Autodidata, Dea é ceramista e sucateira e costuma catar materias de descarte para desenvolver a sua arte. O quintal é uma espécie de ateliê vivo, onde se pode apreciar soluções criativas de mobiliário, suporte para hortas orgânicas, tecnologias de reciclagem e até um mezanino com vista para o mar.

Panela de barro

Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

“Não tínhamos comida em casa, então eu comia na casa da minha tia Áurea e lá fui vendo ela cozinhar e aprendendo”, relembra. Foi a partir dessa necessidade que Dea aprendeu o que hoje virou uma das suas principais fontes de renda.

Ela começou a fazer feijoada há 15 anos na panela de barro e passou a servi-la na calçada de casa para os amigos mais próximos. A iniciativa deu tão certo que virou negócio. “Eu tinha um vizinho que sempre perguntava se tava vendendo, aí eu comecei por encomenda”, explica.

 

O prato de feijoada custa R$ 15. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
No quintal a mesa é coletiva e a informalidade da conversa rola solta. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Além da tradicional e apetitosa “Feijoada da Palha”, como gosta de batizar, Dea também faz arrumadinho, dobradinha, macaxeira, vaca atolada, bode etc. “Nesse quintal eu já fiz até polenta”, complementa.

Quintal de Dea (Feijoada da Palha)
?Rua José Belarmino Silva (antiga Rua da Palha)
? A feijoada acontece todo primeiro domingo do mês
? (081) 9622-3915 (Andrea) – Entrar em contato para acertar visita