Rua 13 de Maio, número 121. A recepção é calorosa, e o anfitrião que ao contrário de conduzir ao interior da casa, indica o outro lado da calçada e cheio de orgulho apresenta, “venha ver, em primeira mão”. E aponta a fachada recém-tomada por um azul céu, “foi pintada hoje”. 

Por que Casa Azul? Sonho azul era o trem que ia do Crato até Fortaleza “a gente adorava andar nele”. Tinha o fusca 68 azul. A praça Azul. Os amores de olhos azuis, e notoriamente o soneto de Pena Filho.

Samarone Lima nasceu no Crato-CE em 69. Veio para a capital Pernambucana em 1987. Possui respeitada trajetória como escritor, jornalista e cronista (algumas crônicas suas estão publicadas no Estuário). Por que Recife? Havia alguns parentes por aqui, que somados ao desejo da independência típica da adolescência, fizeram deste seu lugar.

Fora aprovado nos vestibulares da Universidade Católica e da UFPE para Jornalismo e Educação Artística respectivamente. Cursou ambos simultaneamente resultando na figura de um jornalista com a sensibilidade de um poeta, um poeta com as técnicas de um jornalista. Ao responder a brincadeira, “Poeta ou Escritor?” Samarone responde sem pestanejar, “Poeta”.

Muito embora revele que apesar de escrever poesias desde os 13 anos, só veio publicar seu primeiro livro do gênero em 2012 com A praça azul & O tempo de vidro, em volume único sendo o primeiro uma compilação de escritos e o segundo um longo poema enfeitado pelo “flamboyant de Exu”. As obras abriram os caminhos para O aquário desenterrado (2013) e A invenção do Deserto (2016), por enquanto.

Sebo Casa Azul. Foto: Katarine Araújo

Sobre literatura, encontros e lentidão

O poeta afirma, “sempre disse que morreria feliz se morresse dentro de um sebo”. Mas ao contrário do fim, Samarone parece ter encontrado “um encaixe e encontro com a vida”, sendo cada vez mais tomado pela literatura, encontros e lentidão inerentes à iluminada Casa Azul.

Inaugurada em abril de 2017, o acervo conta com mais ou menos dois mil exemplares de diversos gêneros literários, muitos deles doações de amigos e amigas dos quais Samarone menciona com carinhoso orgulho. O critério de seleção dos livros expostos nas prateleiras? “tem que ser livro bom, né?”, brinca o autor que é também o curador do espaço.

A gata Isabelitta é anfitriã das atividades do Sebo. Foto: Reprodução/Estuário

Mas não dá para visitar o Sebo e não se render aos encantos da felina Isabelitta. “Eu passava pela esquina, fazia uns carinhos nela e ia embora, durante três dias foi assim. Até que um dia ela entrou, sentou no teclado do computador, me olhou fixamente e decidiu ficar. Até hoje”. A gatinha participa de lançamentos de livros, peças de teatro e saraus.

Samarone Lima não escolheu Olinda, Olinda – talvez sugerida pelo oráculo de um tarô – escolheu e acolheu o Poeta. A casa que recebe amantes da literatura e onde o sebo faz morada é também a residência dele. O banho de mar no fim de tarde na Praia dos Milagres é sagrado, confessa demonstrando total adaptação à rotina na Cidade Alta.

Samarone Lima. Foto: Reprodução/Facebook

No contrafluxo do capitalismo selvagem, qual o horário que o sebo funciona? “Quando estou em casa. Se não estou, deixo uma placa avisando”, simples assim.  A sugestão para quem quer conhecer o espaço e também adora poesia é toda sexta-feira (o horário varia entre 20h33 e 21h06) onde acontece verdadeira farra poética na calçada que fica tomada por quem escreve, lê, admira e respira poesia.

Normalmente o evento conta com um poeta convidado que abre a noite, deixando o microfone aberto para quem quiser chegar junto e dizer umas palavras. Sempre com uma cervejinha gelada à venda lá mesmo ou no Sana Beer, que fica ao lado, claro!

O encontro acontece toda sexta-feira. Foto: Katarine Araújo

Sebo Casa Azul
Rua 13 de Maio, 121, Carmo, Olinda-PE
(81) 9727-4095 (Samarone Lima)