Não tem nada não, seu doutor/ Não tem nada não/
Amanhã mesmo vou deixar meu barracão/
Não tem nada não, seu doutor/
Vou sair daqui/ Pra não ouvir o ronco do trator

O versos escritos pelo poeta João Rubinato, nome artístico Adoniran Barbosa, no samba-resistência Despejo na favela, mexeram com os brios dos presentes em uma das salas do Sebo Casa Azul, em Olinda, onde aconteceu a celebração do primeiro aniversário daquele espaço inventado (ou em processo de invenção) pelo escritor Samarone Lima.

No grito periférico interpretado lindamente e à meia luz por Gidália Santana, todas as inferências possíveis dos tempos cinzas que nos rodeia se fizeram presentes no contrafluxo daquele espaço-tempo. Horas antes, o milagre do choro se fez presente no azul daquela mesma sala durante a exibição do documentário ABC da greve, de Leon Hirszman.

Sebo Casa Azul é novo reduto poético na Cidade Alta de Olinda

As lágrimas vieram de um homem, ele é dono de um bar e tem um bom coração. A peça audiovisual conta a história de um passado recente que de tão presente e familiar até assusta. É preciso a gente se encontrar pra não cair em depressão, alguém disse.

A gata Isabelita. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

“Recomendamos a quantia de dez reais porque artista também tem que ser valorizado”, falou antes dos primeiros acordes iniciarem. Um pouco mais tarde o chapéu foi passado após o grand finale protagonizado pela gata Isabelitta, roommate de Samarone.

É na trincheira poética do Sebo Casa Azul que os amantes das palavras e da boemia têm se encontrado para partilhar algumas rajadas literárias enquanto entornam algumas buds da geladeira, escutam jazz no pen drive e, quando quem sabe, amanhecem o dia aos mergulhos com a peixe-boi Ganesha, na Praia dos Milagres.

Por onde anda Tarcísio Pereira, da icônica Livro 7?

“Muito legal isso aqui”, disse German. Achei que estava falando dos livros, mas ele se referia, pensando alto, ao formato da estante de livros que inteligentemente reserva espaço para as obras em versão pocket. Conversamos alguns minutos sobre a nossa espetacular incapacidade de fazermos trabalhos manuais e como agora temos que correr contra o tempo.

A História da Vida Privada era a coleção que estava interessado, mas a importância não estava discriminada no livro e Samarone, segundo German, deveria estar muito ocupado para atendê-lo. Sempre dá um pouco de trabalho pagar qualquer coisa na Casa Azul, como se a troca pelo dinheiro fosse adiada ao máximo para evitar constrangimentos.

– Que camisa linda, é de Catarina?, pergunta a menina.
– É a mensagem do amor, seja ela de quem for. Explico.

Foto: Katarine Araújo/PorAqui

Pensei no sebo como um microespaço de resistência, um respiro profundo em meio às lâminas, uma luta honesta, nada passiva e que em potência pode sangrar até a alma. E estávamos lá, não muitos, quem sabe apenas para um “abraço coletivo”, depois de uma semana massacrante e um dia constrangedor ao mesmo tempo que histórico.

A chuva se amostra nas molduras da casa. Por algum motivo olho para a grade e o cadeado está fechado. Não tem mais ninguém de carne e osso do lado de fora, a rua vazia. Penso na guerra, nas ocupações, nas fake news, lembro da foto de PronerPenso que a Casa Azul tem vocação para ser um bunker ótimo para se livrar de alguns bombardeios.

Nesta mesma noite, a somente alguns metros e ladeiras dali, Gilú e Cláudio Rabeca tocaram na calçada de uma querida cervejaria artesanal do Centro Histórico, a Gluck. Mais um impulso para uma noite olindense de resistência, fortuna e pescoços que não baixam.

E mais tarde o pau ainda ia comer em Guadalupe, no coco de Mãe Beth de Oxum, lá onde não se tem escolha, entre fazer política ou não.

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