Hoje, 26 de fevereiro de 2018, a Banda Eddie disponibilizou na internet “Mundo Engano”, sétimo álbum da carreira. No contrafluxo de um nexo contemporâneo cada vez mais acelerado e descartável em que o showbizz dispara “todo mês, uma tacada diferente“, a banda nascida em Olinda segue firme na regularidade de lançar uma obra a cada dois/três anos.

“Mundo Engano” é uma leitura e interpretação do que Pupillo da Nação Zumbi compreende sobre a Eddie. Desde o primogênito e excelente Sonic Mambo que a banda não confiava cem por cento a direção dos novos caminhos a um produtor. E isso já torna as 10 faixas (37min18s) do novo trabalho interessantes por si só.

Em uma sintética troca de mensagens de áudio via whatsapp, o vocalista e guitarrista Fábio Trummer contou ao PorAqui algumas anotações mentais sobre o momento atual de uma das bandas mais longevas e ativas da música contemporânea pernambucana.

I

“A gente costuma pensar bem como uma empresa. Eu me preocupo muito com essa periodicidade (de lançamento), porque eu preciso fazer as músicas (…) até instigo os caras a compor, mas é também uma escolha que faço por prazer, a composição pra mim eu digo que é a minha Disneylândia”.

“Em paralelo a isso (fase de composição) eu vou movimentando uma grana de circulação, a gente vai se preparando, tirando uma parte dos cachês e dos direitos autorais para que possa ter essa regularidade (de lançamento)“.

II

Karina Buhr fez parte da formação original da Banda Eddie. Foto: Divulgação

“Na época do Sonic Mambo a gente era uma formação muito mais roqueira, a galera que passou pela banda tinha essas referências. Quando essa turma deixou a banda, ali no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, começamos a tocar com a formação que existe hoje, então são outras pessoas e isso muda muito”.

“(…) a  partir do momento que fomos amadurecendo começamos a buscar nossa música própria, agregando coisas diferentes (…) começamos a conhecer e ouvir mil outros universos e pensar música paralelo a essas coisas que iam acontecendo com a gente, foi daí que a música da banda se transformou e virou um monte de coisa”.

“Eu quero que sempre mude, a nossa busca é essa. Acho que a gente encontrou uma música própria com essa formação (…) mas sempre quando a gente chega em algum lugar, queremos chegar em um lugar depois e isso é em aberto, não tem fórmula pra isso ou direções a seguir, é puramente intuitivo”.

III

O novo disco teve a produção de Pupillo da Nação Zumbi. Imagem: Divulgação

“Mundo Engano é uma maneira de fugir de um monte de coisa nossa. Pela primeira vez a gente foi produzido 100% (…) desde o Sonic Mambo que isso não acontecia. É bacana porque é uma interpretação de Pupillo, mas a gente conversou desde o início de que a ideia era buscar coisas novas”.

“Mesmo assim uma coisa que a gente não vai deixar de ser é esses cinco caras tocando juntos as músicas próprias de cada um”.

Olinda como epicentro

“Ainda moro em São Paulo, sim. Estou lá há 13 anos pagando aluguel, mas frequento a cidade desde 1994. Acho que eu preciso disso porque a música precisa ser mais dinâmica dentro da minha cabeça pra funcionar. Eu adotei São Paulo pra pagar aluguel”.

“Acho que primeiramente estávamos falando de Olinda de dentro para fora, agora estamos falando de Olinda de fora para dentro (…) Olinda como uma metáfora para as cidades do mundo, Olinda como todos os lugares”.

“Olinda que a gente conhece bem, de uma estética muito forte, de uma simbologia muito forte, é como os caras lá de Nova York que usam a estética do gueto para fazer o hip hop e os caras aqui entendem essa estética e reproduzem isso”.

Guia de Olinda por Urêa, o Barreto olindense

“A nossa ideia é usar o que a gente tem de pessoal para poder as pessoas lá em Nova York pegarem uma sombrinha de frevo com um coturno e uma camisa do Devotos e sair fazendo uma roda punk-frevo por lá. A ideia é misturar os povos, levar o daqui pra fora e trazer o de fora pra temperar o daqui”.

Parte do estilo de vida olindense é reproduzido nas músicas da banda. Foto: Gilvan Barreto/Ag. Lumiar

“Eu não consigo me desconectar de Olinda, minha família mora lá ainda, meus amigos, a maior parte da banda, é um ponto marco zero, um ponto de observação, de reclusão, de gestação da nossa música, é um epicentro de onde a gente vai formular nossas intenções musicais, e nossos caminhos que vão ser percorridos”

“É o nosso reflexo musical, é exatamente essa diversidade que vem espontaneamente e é bem vinda. Você me perguntou se a gente ainda podia mudar (…) sim, tem muito pano pra manga, só dentro de Olinda mesmo tem um milhão de estéticas que a gente nunca explorou”.