Nesta quarta (14), a vizinhança do Sítio Histórico de Olinda amanheceu com a notícia de que mais uma mulher foi assassinada. A moradora da Cidade Alta Maria Alice Soares dos Anjos (74), conhecida pelas pessoas próximas como “Baixinha”, foi encontrada sem vida no quintal da própria casa na noite da terça-feira (13), em Olinda. Por enquanto, a suspeita é de latrocínio.

“Morremos um pouco a cada caso. Além de ser idosa, era mulher e isso tem sido recorrente no nosso estado. Como evitar crimes como esse? Quantas vamos ter o direito a uma morte natural?”, provoca Eugênia Lima, moradora do Sítio Histórico de Olinda, chamando atenção de que é preciso priorizar a segurança a partir da questão do gênero.

Fundadora do Eu Acho é Pouco é encontrada sem vida na Cidade Alta

Maria Alice era arquiteta aposentada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e fazia parte do conselho da Sociedade Olindense de Defesa da Cidade Alta (Sodeca). Também era uma das fundadoras do tradicional bloco Eu Acho é Pouco e foi uma das artistas que esteve à frente da confecção do primeiro estandarte do bloco.

O  caso está repercutindo com força nos grupos de Whatsapp da vizinhança onde morava a alagoana que residia na cidade de Olinda desde a década de 1970. As mensagens trazem um misto de lamento, pela perda, e revolta por um histórico de impunidade já conhecido que acompanha qualquer morador de Pernambuco nos dias de hoje.

Maria Alice era vista como uma pessoa de muitos amigos. (Foto: reprodução)

“Infinitamente lastimável essa prova dos tempos violentos em que vivemos! Que Deus a receba e a sua estrela brilhe muito no céu! Gratidão por ter criado algo para dar alegria a tanta gente e com tanta significância político-ideológica!”, disse a moradora Anaclaudia fazendo clara alusão à participação de “Baixinha” na criação do Eu Acho é Pouco.

“É uma pena a partida de nossa colega. Infelizmente tivemos que chegar a esse ponto para se perceber um problema tão antigo em Olinda. Esses furtos à residência sempre fizeram parte do cotidiano dos moradores da cidade, mas chegar a esse ponto é uma triste novidade”, lamenta Natan Nigro, representante da Sodeca, associação de moradores na qual a vítima era conselheira.

Ações de segurança nas prévias de Olinda recebem críticas e elogios

Morador do bairro do Bonsucesso, Clarence chama atenção para a vulnerabilidade dos quintais das casas do Sítio Histórico.”Confesso que quando dá 23h e meus vizinhos fecham as portas, já corro do meu quintal. E olhe que ajeitei ele todo, mas ficamos com medo de aproveitar algo nosso”, assume.

Para Madalena, moradora do bairro de Rio Doce e frequentadora do Sítio Histórico de Olinda, é preciso saber a quem pressionar. “É óbvio que o problema na segurança pública não passa somente pela questão da violência. Mas a gente tá falando de pessoas que estão morrendo no quintal de casa, no ônibus, na rua. É algo urgente onde eu acredito que a Secretaria de Defesa Social tem que ser provocada”, pontua.

Segundo Yolanda, moradora da Cidade Alta, é preciso organizar um ato público. “Cabe aqui realmente uma profunda reflexão, mas para esse momento, mesmo antes de termos claras as exigências à SDS, devemos, sim, fazer uma mobilização para chamar a atenção para um problema sério”, acredita.