No último domingo (19), eu vivenciei uma das situações mais loucas da minha vida. Na verdade, cerca de 20 mil pessoas vivenciaram o mesmo. Algumas pessoas sequer puderam perceber. Mas, para mim, foi uma pancada.

Vou explicar: para o domingo, no encerramento do Mimo Festival 2017 em Olinda, estava marcado o show de Otto. Eis que, na madrugada do mesmo dia, o percussionista da banda, Marcos Axé, veio a falecer. Ele estava na banda há 20 anos, tinha 39 de vida.

No entanto, o show foi confirmado. Logo que recebi essa notícia, pensei “devia estar doente, acamado”. Mas não, Axé foi vítima de um enfarto fulminante. A banda perdeu um integrante que estava há 20 anos junto no trabalho e que “ainda agora, estava bem”. E resolveu tocar. Subir ao palco. Celebrar. Era a homenagem que eles podiam fazer.

Esse fato por si só já deixava o momento fora da linha da razão. Criei uma expectativa em cima disso. Como que iria ser aquilo? Muita gente foi chegando, fui encontrando os amigos, alguns na ideia de dançar, de curtir, de ouvir o som do cara. Eu resolvi apenas observar. Prestar atenção em Otto, na banda, no público, em tudo que iria se suceder ali.

Eis que começa o show. Ainda durante a apresentação do que viria, eles entraram, e Otto assumiu o microfone. Completamente louco. “Como sempre”, “ele sempre toca assim”, alguns falaram. E é verdade. Mas dava para ver, dava para sentir, aquela embriaguez não era a de sempre. E não era para menos… A emoção era clara e eminente.

O som já começava a embalar, e Cabeleira soltou o que enxergou lá de cima: “Eu conheço aquele chapeuzinho ali, não é o cara de Nação?”. Sim, era o cara de Nação, era muito mais, era Toca Ogan tocando por Axé. Assumindo seu batuque poucas horas depois do acontecido.

Foi aí que esse texto nasceu, foi aí que eu tive uma noção do que estava se passando. A tapa veio forte. Puxei meu compadre pelo braço e disse “Cara, vou te falar um negócio pesado, mas a gente tá assistindo uma cerimônia fúnebre, um velório”.

E um velório muito do louco. Como era o intuito de ser, claro! “Vamos tocar!”. A homenagem ao Marcos Axé, realmente, não poderia ser outra. E Olinda se abria em sua essência para ser o palco daquele ato.

O tempo foi caminhando, as músicas foram sendo cantadas e o discurso veio com a emoção cabível. Em várias oportunidades, Otto, visivelmente emocionado (assim como todos que estavam ali naquele palco, aposto), colocava sua angústia para fora. Reclamou da negligência dos representantes públicos com a saúde, ressaltou o que o povo passa nesse perrengue cotidiano.

Chorou, falou de outras coisas, lembrou o amigo e de novo pediu mais condições nos hospitais. O público por vezes não acompanhou o que era dito. Porém, ele estava lá falando. Exatamente como nos velórios, quando um parente ou um amigo vai ao púlpito, ao microfone ou simplesmente ao centro do recinto, para falar de quem se foi e desabafar, Otto estava lá, com toda a banda. Se abrindo para mais de 2 mil pessoas, na Praça do Carmo.

Durante a preparação de uma música, um dos percussionistas (que não consegui distinguir qual) colocava o aparato para tocar a zabumba. Otto, observando com o microfone em mãos, naturalmente soltou: “Vai menino, substitui o Axé aí”.

(foto: Tuca Soares)

Mirou a praça repleta de gente, tentou começar uma frase com “É galera, a vida…” e por aí parou, não conseguiu prosseguir. Para ser sincero, depois desses lentos segundos, ele não conseguiu mais completar qualquer frase de desabafo, se emocionava antes.

Em meio a tudo isso, estava eu, completamente abismado com o que estava presenciando, vivendo. Por diversas vezes, aquele nó na garganta, aquela enchente nos olhos. Imagine a circunstância da decisão: “Vamos tocar!”. Imagine o exato momento em que houve a reflexão: quem vai tocar no lugar dele?

Eu fiquei um bom tempo simplesmente de cara, imaginando o dia daqueles homens. Cada etapa, cada angústia, cada perturbação, cada segundo de dor e de total confusão. E a família? Putz!

Mas havia um show a ser feito, havia um ritual a se executar. Muita gente ali embaixo ainda sequer sabia do falecimento. Mas a energia estava intensa, forte e presente. Todos que subiram ao palco para construir esse acontecimento diferenciado na história da música pernambucana (e mundial!) conseguiram alcançar o objetivo. Tenham certeza disto!

E só podia ser no Mimo. Não podia ser em nenhum outro festival, local ou cenário. Somente ali, com aquela energia inexplicável que tem esse evento, algo assim poderia existir. Todos dançaram, cantaram em alto e bom som, se deliciaram com a qualidade que tem o trabalho de Otto e sua banda, mas com a presença marcante do porquê. Algo transcendental.

Gilmar Bola 8, Lirinha, tanta gente… Tanta gente que estava naquele templo que era o palco da Praça do Carmo… É difícil encontrar palavras para o que foi realizado. Quando todas mãos se juntaram nos tambores, teve até caixa de som que estourou. Peixinhos estava ali com muita força. “Com calma e sabedoria” (palavras do cantor), dando a substituição.

Com muito poder, com uma representação acima de qualquer entendimento, de qualquer tese. Nossa cultura é madeira de lei que cupim não rói.

É, Otto, você encerrou o show dizendo que, naquele momento, estava renascendo, e exatamente onde tudo começou. Boto a maior fé, senti que era fora dessa realidade. E posso dizer que muitas concepções minhas mudaram também, ou renasceram junto.

Viva Olinda, viva Peixinhos, viva o Mimo, viva a amizade, a cultura pernambucana, a luta pela nossa música, a luta pela nossa raiz. Viva Otto, viva todo mundo que esteve lá, que viveu essa situação mágica e louca. Poucos, no mundo, conseguiriam fazer o que vocês fizeram naquela noite. Certamente foi digno de quem partiu.

VIVA MARCOS AXÉ! “Porque até pra morrer, você tem que existir” e resistir. Vai-se o corpo, fica o homem, fica a ideia, fica a música!

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