Imagina viajar pelo Brasil numa Kombi antiga, tendo, quem sabe, as deusas por testemunha e uma cadela por companhia? Esse é o atual projeto da recifense Joana Cavalcanti, 36, que largou a carreira de advogada em São Paulo para levar a vida na estrada, em companhia de Dude, uma vira-lata adotada que, aos 7 anos, já rodou 5 mil quilômetros.

Junto com Joana, Dude vive uma aventura chamada Dude Kombi Trip. (Você pode seguir a viagem delas pelo Instagram: @dudekombitrip). Ah, e a Kombi tem nome, claro: Galerosa!

Joana e Dude, na Kombi Galerosa. (Foto: Acervo Pessoal)

O início

Elas começaram a viagem em janeiro deste ano na Kombi que Joana conseguiu comprar graças a uma vaquinha que fez na Internet e para a qual os amigos (sempre eles!) doaram 4 mil reais. Seis meses e dois motores depois, o trio já viveu muitas histórias.

Tudo começou porque Joana adorava viajar, mas não gostava de um detalhe, não tão pequeno assim: ter que deixar Dude em casa, em São Paulo. Inspirada em alguns viajantes das estradas, decidiu que Dude merecia “carimbar o passaporte” também.

“Fui num encontro em Paraty no ano passado e conheci alguns casais que iriam começar a viajar de Kombi, e aí me apaixonei de vez e comprei uma. Entreguei minha casa em São Paulo e me mudei pra Kombi.”

Joana conta que já foram de São Paulo até o extremo litoral sul de Santa Catarina, agora estão em Minas Gerais e, se você estiver lendo esta história nesta segunda, 23 de julho, no exato momento, Joana, Dude e a Galerosa estão precisamente em Belo Horizonte, de onde devem sair no início do mês que vem.

Para Joana, que, por razões óbvias, é quem escolhe o próximo destino, é fundamental que o trio fique em condições favoráveis: lugar seguro para a Galerosa e garantia de aventuras para Dude.

A rotina é não ter rotina

“A gente nunca sabe quanto tempo vai ficar em cada cidade. A Kombi é uma caixinha de surpresas. Quando eu e Dude gostamos muito de um lugar, a gente fica. A gente chega, já arruma um lugar seguro pra Kombi e passa o dia andando. Dude ama tomar banho de cachoeira, de piscina, de praia. Então onde tem água, ela se joga”, conta Joana.

Dude: onde tem água, ela se joga

Sobre a vida em uma Kombi, Joana dá os detalhes: “Na estrada, precisamos de muito pouco porque não temos que pagar condomínio, aluguel, IPTU, luz, água, TV a cabo, Internet”, diz ela, que pode trabalhar em bares, eventos e até cuidar de um hostel ou camping em troca de alimentação, banho e um lugar seguro pra estacionar a Kombi.

Segundo Joana, a vida na estrada reserva gratas surpresas. “O mais legal da Kombi é que a onde você chega, as pessoas conversam com você, oferecem um banho, perguntam se você tá precisando de alguma coisa”, fala.

Já Dude vem revelando uma nova faceta. “Ela é um doce, muito carinhosa, mas, dentro da Kombi, ela vira um verdadeiro cão de guarda, não deixa ninguém chegar junto. Me protege de tudo”, revela.

Sobre a ausência de luxo, Joana diz que aproveita o estilo de vida para ver até onde consegue ir com simplicidade. Sente falta de um bom jantar de vez em quando, mas o estilo de vida, pra ela, vale o sacrifício.

Empoderamento

Você deve estar aí se perguntando, e quando o veículo quebra? Joana responde com tranquilidade: “A Kombi é um carro simples de manutenção, eu mesma troco algumas peças, mas tudo vou aprendendo na estrada e com amigos generosos pra me ensinar”.

Você também deve estar se perguntando… “Uma mulher sozinha na estrada?”

“Sendo bem honesta, todo mundo pergunta se não tenho medo. Me sinto bem mais segura na estrada do que em uma boate de Recife, por exemplo. Os homens ditos perigosos, como os caminhoneiros, até agora foram sempre muito gentis”, compara.

Também encontra dificuldades na hora em que precisa ir na oficina. “Sempre tenho que pesquisar os preços na Internet antes de ir comprar peças, porque eles me tratam como se eu não soubesse de nada. É um mundo bem masculino, mas estamos aí pra quebrar esses conceitos”.

Só vai!

A vida na estrada não é fácil, mas Joana conta com um grupo de amigos viajantes que, mesmo de longe, são fundamentais na hora em que a energia está mais em baixa. “A maior expressão entre nós é ‘Só vai!’. A ideia é que mais pessoas façam o que sonham, não esperem um parceiro ou parceira. ‘Só vai’, no sentindo de se permitir”!”, explica.

Mas pretende ficar quanto tempo viajando?, pergunto.

“Não tem tempo. É estilo de vida. Posso parar a qualquer momento ou nunca parar”, responde ela, que já pensa em levar a Dude Kombi Trip para outros países da América Latina e até para a Europa e Ásia.