Em tempos de eleições – ainda mais tão esdrúxulas quanto as atuais, onde sobram candidatos e faltam boas opções –, falar em Literatura e política pode soar óbvio, só que não. E nem vou entrar em alguns elos que conectam essas duas áreas, como perseguições políticas a escritores, livros-denúncia ou obras que aprofundaram o pensamento político. Não. Tomarei outros rumos. Em primeiro lugar, minha reflexão recai sobre a pobreza da visão política pela sociedade em geral.

A polarização acirrada anda produzindo um quantum de excrementos posturais e verborrágicos. Bloquear ou excluir “amigos” nas Redes Sociais é só uma pitada disso, que passa também pelo pensamento crítico limitado da maioria e um volume assombroso de interesses velados via notícias falsas, além de outras aberrações.

É assustador perceber como é fácil manobrar a massa (de qualquer classe social e intelectual). Frases feitas, jargões pré-fabricados, fake news deglutidas com facilidade pueril… O resultado é a ausência do que a política pode produzir de melhor: o debate, o contraditório, o engrandecimento que o antagonismo sadio pode proporcionar. Sim, é a falta de pensamento crítico que produz tamanho desarrumo. Sim, é falta de Literatura no cerne do povo!

Antes que você questione algumas particularidades quanto a minha afirmação (lógico, tem gente “literata” com nível de discernimento questionável etc), não tenho dúvidas de que a Literatura é capaz de desenvolver intelectos e produzir novos horizontes filosóficos. Literatura é arte. Arte requer contemplação. Contemplar agiganta. E como estamos carentes de pensamentos agigantados…

Debulhar um bom texto literário (e desvendar as intenções do autor de uma obra) é exercício excelente para clarear as ideias em tempos de excessos de mentiras e más intenções que a política atual insiste em perpetuar. O bom leitor, assim como o escritor atento, larga na frente ao analisar o fogo cruzado infame da convivência humana, ainda mais no pleito atual.

Ampliando o foco, pergunto: qual o papel do escritor no presente cenário político?

Não acredito em escritor panfletário (e existem alguns nesse país). Filosofismos político-partidários tendem a reduzir a força das ideias (apesar de que alguns acreditam no contrário), a alimentar massificações e a reduzir a qualidade literária das obras. Engajamento é outra coisa. Criticar e produzir reflexões inteligentes através da arte talvez seja a maior bandeira que um escritor possa fazer tremular – engajamento pelo simples fato de ser o escritor também um ser social; e digo isso porque se atribui um status esdrúxulo de intelectual a todos que escrevem, mesmo que nesse país pouco se valorize a função de escritor.

(Aliás, vale ressaltar que esse status mencionado também é atribuído a políticos, não o de intelectualidade, mas o de autoridade quase suprema. Talvez aí resida a multiplicação de ladrões de colarinho branco e políticos-estrelas porque ficam famosos e ricos através da função pública a que deveriam bem exercer. Quanta distorção!).

A Literatura é a grande arma social. E deveria ser melhor utilizada contra o politicismo doente que nos abarca. Contra essa massificação pseudo-ideológica que nos contamina. Contra a ignorância que só tem nos afastado de uma aproximação do real ideal democrático. O ato político do escrever necessita de urgente revisitação em nosso país.

O escritor paulistano filho de argentinos, Julián Fuks, em declaração à Revista Época, provocou reflexão interessante nesse contexto:

“Quando o discurso político se simplifica demais dentro da literatura, se torna caricato e utiliza tipos de personagens que encampam visões dogmáticas da realidade, a literatura pode se tornar, ela mesma, dogmática e panfletária. A minha proposta de literatura ocupada se distancia bastante da literatura panfletária. Não pretendo tematizar exatamente o que está acontecendo em Brasília, por exemplo, mas perceber como a questão política espelha e afeta nossas vidas pessoais”.

No anverso da colocação de Fuks, levo o mesmo conceito para o outro lado, o do povo. Esse extremismo troncho que paradoxalmente afasta e aproxima mitos que se posicionam em lados opostos está nos distanciando da verdadeira luta pelo bem comum – luta essa que a maioria dos nossos políticos deixou de lado num quase sempre. E só multiplica a panaceia que escorre nas Redes Sociais.

Vou ficar mesmo com a Literatura. Em breve vem livro novo por aí. Nele (oxalá!) meu engajamento também estará refletido – até lá, sigo tentando encontrar alvo útil pro meu voto. (eita coisa difícil!)

 

Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas, sendo a mais recente “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos”. Realiza palestras, workshops e oficinas de Criatividade e Escrita e é apresentador do programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv). Contato: sidneyniceas@gmail.com.

 

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