O projeto de crítica cultural recifense Outros Críticos criado pelo escritor Carlos Gomes e a designer Fernanda Maia, neste mês de setembro completa 10 anos de história. Para celebrar o encerramento deste ciclo e a reabertura de outros, a dupla lançará o livro O outro é uma queda (R$ 35), publicação impressa que abrange temas transversais como música, literatura, cinema, artes visuais, dança, teatro, jornalismo e – claro – crítica cultural.

A publicação já está em pré-venda na loja virtual do Outros Críticos com combos promocionais e outros produtos associados

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Capa do livro produzida por Fernanda Maia. Foto: Divulgação

Para o livro foram selecionados alguns textos dessa primeira década de atividades que foram publicados em diferentes meios, como blog, site, zine, revistas e livros, além de contar também com conteúdos inéditos, escritos especialmente para a publicação comemorativa. A seleção dos textos antigos apresenta os materiais considerados mais relevantes para contar a trajetória do Outros Críticos.

“O outro é uma queda” foi escrito por 39 pessoas e conta com textos de Alessandra Leão, Ana Lira, Ana Luisa Lima, Angela Prysthon, Bruna Rafaella Ferrer, Carol Almeida, Conrado Falbo, Fabiana Moraes, GG Albuquerque, H.d. Mabuse, Jomard Muniz de Britto, José Juva, Karol Pacheco, Kiko Dinucci, Liana Gesteira, Marina Suassuna, Rafael de Queiroz, Romulo Fróes, dentre outros.   

O livro conta com o apoio da Cepe – Companhia Editora de Pernambuco e tiragem de 500 cópias.

Lançamento no Recife e em São Paulo

A artista carioca Ava Rocha participará de lançamento em São Paulo. Foto: Ana Alexandrino

Até então estão previstos três eventos de lançamento em locais diferentes para marcar esse momento. O primeiro ocorre no dia 20 de setembro, às 18h30, no Sexto Andar do Edf. Pernambuco, com debate e feira de publicação e a participação de Carlos Gomes (Outros Críticos),  Schneider Carpeggiani (Suplemento Pernambuco/Cepe Editora), Fred Caju (Castanha Mecânica/Mopi), Dandara Palankof (revista Plaf) e Heitor Melo (revista Propágulo).

Já no dia 24 de setembro, às 15h, na Editora UFPE, os autores Marcelo Coutinho (Artes Visuais), Liana Gesteira (Dança) e Fernanda Maia (Literatura) irão apresentar os respectivos textos escritos para publicação. No dia 28 de setembro, em São Paulo, na livraria Tapera Taperá, às 19h, haverá debate com as autoras Priscilla Campos e Marina Suassuna, que conversam com a cantora e compositora Ava Rocha e a pesquisadora e jornalista Sheyla Miranda.

Reabertura de ciclo

Fernanda e Carlos se conheceram no curso de Letras da UFPE. Foto: Édipo, Roazzi, Gomes e Maia.

Ela da Linha do Tiro, ele do Porto da Madeira. Fernanda e Carlos, crias da periferia recifense, se conheceram no curso de Letras da UFPE e desde lá atuam no meio da crítica cultural, quando em 2008 inventaram de criar o blog Outros Críticos. No início assinavam como Amélie Marie e Júlio Rennó, entre outros heterônimos.

Dez anos se passaram e após diversas publicações, entre elas a revista Outros Críticos, com 12 edições (2015-2016), a dupla alcança 2018 com um projeto robusto que já contou até agora com a participação de centenas de pessoas de diversas perspectivas. Um exemplo para um país que cada vez mais negligencia a capacidade crítica do seu povo.

O PorAqui conversou com Fernanda Maia (F.M) e Carlos Gomes (C.G) sobre o momento atual do projeto e as perspectivas de futuro.

O projeto Outros Críticos completa uma década de vida. Qual o significado deste marco?

F.M: Penso uma década não como um marco, mas como um ciclo. Preocupo-me no como esses 10 anos foram assimilados, para que novos ciclos sejam (re)projetados em vista da experiência do projeto Outros Críticos, especificamente. Confesso que ainda tenho a minha atenção voltada ao que ainda posso fazer, menos para o que fiz.

Como enxergavam a movimentação cultural do Recife no início do projeto e o que tem percebido da mesma nos dias de hoje?

F.M: No começo do projeto eu conhecia pouco da cultura independente local. Com o Outros Críticos eu pude me aproximar, de forma consciente, de uma camada criativa que atualmente é mais latente aos meus olhos, mesmo com as dificuldades de investimento no meio cultural que todos estão sujeitos.

C.G: As dificuldades de manutenção e circulação de projetos autorais continuam as mesmas, mas percebo mais aproximação entre os diferentes setores, seja na criação de coletivos artísticos, ou mesmo numa atuação política mais direta. Nós atuamos de forma muito sutil, com pequenas mediações críticas nos espaços onde nos envolvemos.

Acredita que o Outros Críticos é um projeto de formação crítica? Quais exemplos podem dar nesse sentido?

C.G: A ‘formação crítica‘ talvez seja um segundo passo dos Outros Críticos. Temos pensado em oficinas de crítica, edição e também design, voltado às nossas experiências. Mas tanto as revistas, os livros e a nossa postura nos textos críticos, como editores/produtores, há mais um aspecto de “deformação”, de tirar do lugar do crítico a voz hierárquica, do julgador da obra de um ponto de vista mais elevado, intelectualizado.

F.M: Creio que a formação crítica é um processo de construção da nossa relação com o outro e com o que lhe provem. Em outras palavras, ao passo que diagramei “O outro é uma queda” – assimilando alguns textos, relembrando outros; e produzi a capa a partir de colagens de outros artistas ou registros, gero modos de pensar e agir ou concepções críticas em torno desses objetos.

Tal qual as pessoas que serão afetadas, positivamente ou não, pelo livro. Penso que é assim que os Outros Críticos contribuíram ou contribuem para a crítica cultural e a cultura.

Existe uma preocupação de fazer o projeto ser mais palatável para além do circuito mais intelectualizado? Quais ações têm feito e/ou pensado voltadas para esse sentido?

F.M: Criar projetos gráficos para os Outros Críticos é, em si, uma preocupação em torná-lo “palatável”. Assim quando se publica o mesmo texto da revista Outros Críticos, em formato impresso, no site do projeto, por exemplo. O circuito intelectualizado nada mais é que um grupo de pessoas que, de alguma forma, se espelham ou se interessam pelo projeto.

Ao passo que criar o site, abrir totalmente as publicações ou disponibilizá-las para download, organizar debates, apresentações musicais e até festival são maneiras distintas de abertura do projeto. Para mim, Outros Críticos não se limita (nem deve) a um nome, marca ou pessoa, mas maneiras distintas de pensar ou agir na cultura, que parte de todos os colaboradores.

Enquanto professora, eu posso levar uma revista para a sala de aula e mostrar aos alunos que eles são capazes de terem as suas próprias produções e se orgulharem por isso. Enquanto designer, para um minicurso, exemplificar formas distintas da relação palavra-imagem atrelada ao texto crítico/poético/artístico.

Enquanto pesquisadora, intertextualizo com os diversos textos que li nesses 10 anos. Isto é, os Outros Críticos se expandem à medida que os semeamos em nosso caminho.

Como enxergam os Outros Críticos daqui a dez anos?

F.M: Para mim, o encerramento de ciclo se deu em diversos níveis. É difícil pensar esse projeto uma década à frente. Apesar da capacidade de transformação, atualmente, Outros Críticos requer dedicação e energia que não planejo para os meus próximos 10 anos de existência, diante da baixa reciprocidade.

C.G: Estamos fechando um ciclo. Tenho me visto voltando ao início dos Outros Críticos, como blog – quase invisível -, publicando menos, mais lentamente e com algum tipo de intervenção poética sobre a escrita crítica.