O olhar de uma pessoa estrangeira para o lugar onde vivemos nos desperta a curiosidade por diversas razões. É comum os viajantes-forasteiros tecerem comentários e descrições sobre a nossa terra que – para além dos estigmas, preconceitos e rótulos – podem servir como testemunhos históricos para entendermos melhor sobre nós mesmos. Se nos fizer sentido, claro.

Historicamente alguns ilustres deram pinta por Recife e Olinda, como o brilhante casal Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, o escritor do absurdo Albert Camus, a Rainha Elizabeth, o cineasta Orson Welles, o filósofo Michel Foucault e… Charles Darwin (!). Sim, ele mesmo. O famoso teórico do evolucionismo esteve em terras recifenses por acidente e daqui relatou o que viu em diários e cartas que culminaram na publicação Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo (1839).

Leia também:
Descubra: “Cogue” para os olindenses e o que o recifense tem a ver com isso
Conheça a história do termo ‘corta-jaca’ e a relação dele com o bairro de Boa Viagem

Navio que Charles Darwin esteve a bordo na visita ao Brasil.

Com apenas 22 anos e a bordo do navio H.M.S Beagle junto com outros malucos, o naturalista britânico Charles Darwin estava nada mais nada menos que dando uma volta pelo mundo (quem nunca?) para – permita-me definir como quiser – entender melhor a força da natureza. Suave. A jornada durou cinco anos (1831-1836) e as observações coletadas serviram de base para a “Teoria da Evolução”, apresentada na obra A origem das espécies (1859)

E por que ele veio parar logo aqui no Recife e em Olinda? Bem, durante esse rolezão o inglesinho curioso fenômeno das aulas de Ciências esteve no Brasil em duas ocasiões. A primeira foi em 1832, logo no início da viagem, quando ficou por muito tempo no Rio de Janeiro e, dentre outros lugares, também deu um pulinho no Arquipélago de Fernando de Noronha.

Darwin ficou encantado com Fernando de Noronha. Foto: Leandro Macedo Gonçalves

Os relatos sobre a ilha que constam no livro As Cartas de Charles Darwin (Frederick Burkhardt) são elogiosos e nos ajudam a visualizar a Noronha do século XIX. “Uma ilhota onde os brasileiros mandam seus condenados ao exílio (…) Meu único dia em terra foi extraordinariamente interessante. A ilha toda é só um bosque fechado, tão recoberto de trepadeiras que é muito difícil andar fora das trilhas já abertas”, diz.

O segundo momento em terra tupiniquim foi em agosto de 1836, quando depois de ter retornado rapidamente para a Inglaterra teve que “cair na estrada” mais uma vez para refazer alguns cálculos. Rumo a Cabo Verde teve que enfrentar ventos contrários que o fizeram voltar ao Brasil, mais precisamente para Recife, onde ficou por sete dias antes de voltar de vez ao país de origem.

O homem não gostou do que viu

O naturalista visitou Recife quando tinha apenas 22 anos.

Apesar de relatar a diversidade da vegetação e ficar surpreso com os corais, foi no período que esteve em solo recifense que Darwin mais descascou o Brasil em seus escritos, chamando atenção para alguns problemas que (pasme!) ainda insistem em nos atormentar.

Em seu diário de bordo soltou o verbo sem aliviar muito para o nosso lado: “A cidade (Recife) é por toda parte detestável, as ruas estreitas, mal calçadas e imundas; as casas altas e lúgubres”, escreveu. O mal cheiro do mangue também foi apontado pelo cientista.

O cientista deu a entender que o mangue cheirava a cadáver. Foto: Manuela Salazar

O alagamento das vias foi criticado pelo cientista inglês, assim como a descrição sobre a infraestrutura da cidade que “mal se eleva acima do nível do mar”. Segundo Darwin, todas as tentativas de caminhada foram impossibilitadas pelo inundamento. Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência.

A realidade escravocrata da nossa cidade é um capítulo a parte nas memórias descritas por Charles Darwin.“Até o dia de hoje, sempre que ouço um grito distante, lembro-me vivamente do momento doloroso que senti quando passei por uma casa no Recife”, relata.

“Ouvi os mais angustiosos gemidos, e não tinha dúvida nenhuma de que algum miserável escravo estava sendo torturado, entretanto, sentia-me tão impotente quanto uma criança”, complementa.

Vetado em Olinda

Darwin diz ter sido tratado de forma rude por olindenses. Foto: Imagens do passado

Tratado como cogue, Charles Darwin diz que foi maltratado na Marim dos Caetés. Apesar de ter elogiado a cidade, relatando ser mais “agradável e limpa” que a recém-visitada Recife, o cientista foi protagonista de um episódio humilhante com alguns moradores locais.

Segundo o mesmo, quando precisou cruzar hortas de algumas propriedades para realizar os seus estudos sobre a natureza da região, foi proibido pelos donos das terras. “Devo aqui observar algo que aconteceu pela primeira vez em quase cinco anos de andanças: deparei-me com uma falta de cortesia”, relata.

Darwin teria sido vetado de forma rude pelos proprietários de duas casas. Contudo, na terceira tentativa conseguiu adentrar os jardins de uma residência que dava acesso a uma colina onde teve a oportunidade de ver a região em uma posição mais privilegiada.

A escravidão no Brasil ganhou destaque nos seus relatos.

O acontecido em Olinda serviu para Darwin dar mais uma porradinha de leve. “(…) Sinto-me feliz por ter isso acontecido na terra dos brasileiros, pois não sinto por eles nenhuma paixão – terra de escravidão e, portanto, de aviltamento moral.”, explica.

Em outra passagem ele revela o desejo de nunca mais retornar ao país. “(…) No dia 19 de agosto deixamos finalmente as costas do Brasil. Dou graças a Deus, e espero nunca mais visitar um país de escravos”, diz. E foi embora para nunca mais voltar.