Mergulhando nas novelas do passado, submergindo nos folhetins atuais… Da ficção ao real que nos fere na carne…

Traçando um paralelo entre as décadas de 1980, 1990 e 2000, vemos que os folhetins continuam, por muitas vezes, repetindo temas: amor, ódio, vingança, poder, os mocinhos, os bandidos, a garota ingênua e sonhadora, a menina interesseira e cruel… Mas, no que se refere às temáticas abordadas e a realidade que nos cerca, o que mudou?

Revendo a Sinhá Moça, vivemos a luta dos abolicionistas e a degradação dos negros das senzalas. Saltamos para a recém-chegada O Tempo não Para, e seguimos a ver os negros, ora libertos, presos aos mesmos descasos dos tempos do dolorido gemer sob os açoites… Mesmo que se passem 130 anos. De ficção, só mesmo o papel desempenhado pelas personagens. No mundo real, a luta parece longe de ser vencida… A liberdade, de fato, segue inalcançável…

Mergulhamos em Vale Tudo, e topamos com as falcatruas da época, a corrupção no mundo empresarial, os desmandos do governo, a desenfreada inflação, a desvalorização da moeda, a perda do poder de compra, a alta dos preços, com produtos remarcados todos os dias, e o seu sumiço das prateleiras, a costumeira e insistente crise…

30 anos depois, e se a inflação tem certo controle, os governos, em todas as suas esferas, seguem desmandados, descuidados do seu real papel, cada vez mais vendidos, enlameados em falcatruas… Seguem os preços galopando em remarcações, o poder de compra descendo ladeira abaixo, o povo marginalizado… a danada da crise reinando absoluta outra vez.

Quando nos lembramos do seu final, em que a personagem Marco Aurélio deixa o País nos estalando uma banana, nos damos conta de que é ela que temos levado na cara todos os dias. De novo, na realidade ou na ficção, nada mudou. Diferente, só mesmo a moda… e suas horrorosas ombreiras, que, graças a Deus, não deram mais o ar de sua graça por estas bandas.

Veio a Indomada, com seu inglês mal pronunciado, britanizando e importando costumes; com sua política de conchavos, de obras superfaturadas, faraônicas e desnecessárias, empurradas goela abaixo por gestores incompetentes e corruptos; com suas mulheres fortes, buscando espaço, tentando protagonizar os seus papéis, se mostrar como de fato são e desejam ser… desde o fórum ao cabaré; com a opressão dos poderosos falidos, escondidos sob um tradicional sobrenome, sobre o povo esquecido e distanciado do que chamavam (e ainda chama) de sociedade.

21 anos depois, Orgulho e Paixão nos mostra que a luta feminina é velha companheira de guerra, que a misoginia data de outrora, que o sobrenome continua sendo o mote para a imposição sobre os desvalidos, que o poder a qualquer preço ultrapassa os séculos, que os legados deixados ao povo (Copa de 2014) seguem enferrujando e correndo os bolsos já tão puídos pelo descaso e abandono do poder público.

Nada de novo

De novo… nada de novo… Quer dizer, a pronúncia, seja inglesa ou britânica, até que deu uma alavancada, afinal, os americanos dominam o mundo e até a raiz do vernáculo vive perdendo espaço para o anglicismo desordenado. De resto, tudo permanece igual… Poder pelo poder, preconceito, intolerância… e por mais que as mulheres tenham alçado voos bem maiores, consigam até usar calças, ora essa, seguem lutando por reconhecimento, pela liberdade de ser… tanto pior, pelo direito de viver.

Respondendo ao questionamento acima, pouco se mudou. O homem avançou científica e tecnologicamente, mas continua a ser rudimentar, cresce em vilania, em desumanidade, absorto em se voltar apenas ao seu umbigo, passando por cima do outro como um trem descarrilado na contramão.

As novelas, em primeira instância, podem evocar apenas o papel do entretenimento. Mas, seja de época ou atual, tenha passado há 30 anos ou esteja estreando, a arte segue imitando a vida, a realidade que nos cerca é vista como se fora refletida no espelho e nunca o crédito final perdeu tanto o sentido. Há tempos deveríamos compreender que, apesar de ser “uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real” terá sido a revelação de um retrato fiel do que vivemos… há muito deixou de ser mera coincidência…

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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