O circuito dos poetas da cidade conta com a ilustre presença de Joaquim Cardozo, que também empresta seu nome (e título) para uma ponte do Recife. Porém, o que poucos talvez saibam, é que a formação acadêmica de Joaquim Cardozo passou longe das Ciências Humanas. O poeta era engenheiro civil, e isso não estava restrito apenas ao seu diploma.

Joaquim Cardozo se formou pela Escola de Engenharia de Pernambuco em 1930 e logo se especializou em Cálculo Estrutural. Já mostrava inclinação pela poesia, mas atuou como calculista no Recife, tendo grande destaque e chegando a dar aula na faculdade anos depois.

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Como paraninfo da turma de 1938, fez duras críticas ao governo, que não poupou penalidades ao acadêmico e o fez mudar-se para o Rio de Janeiro.

Lá conheceu Oscar Niemeyer, e a parceria começou a ganhar força. Os dois trabalharam juntos no conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte (MG), e a genialidade de Joaquim Cardozo foi desafiada para tornar reais todos os traços e curvas do arquiteto modernista.

Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Paulo Werneck na Pampulha (1944)

Essa parceria foi longe, e logo os dois estavam a cargo de construir a nova capital federal: Brasília. Muitos dos projetos ousados de Oscar Niemeyer só saíram do papel devido à maestria com os números de Joaquim Cardozo.

O engenheiro foi o responsável direto pela Catedral Metropolitana, o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.

Em 1971, sua carreira bem sucedida foi manchada pelo desabamento do Pavilhão da Gameleira, na capital mineira, cujo cálculo era de responsabilidade de seu escritório. Apesar de anos depois ter sido comprovado que não houve erro de cálculo, o desgaste com os processos e as acusações o fizeram se afastar da engenharia, e mergulharam Joaquim Cardozo num profundo quadro depressivo.

No último dia 4 de novembro, fez 40 anos da morte do engenheiro, poeta, contista, desenhista, editor de revistas, acadêmico da Academia Pernambucana de Letras e professor universitário. Joaquim Cardozo já foi chamado pelo amigo Niemeyer como “o brasileiro mais culto que existia”. Temos muitos mais do poeta do que simplesmente poesia.

TARDE NO RECIFE

Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Maxime,
Cais do Abacaxi. Gameleiras.

Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um camelô gritando: — alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes,
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos
[holandeses,
Que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas
[do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes
E da beleza católica do rio.

1925


Jayme é engenheiro, cervejeiro e nerd old school. Nívia é jornalista, leitora compulsiva e mãe de um labrador chocolate. Juntos, eles amam viajar e são os ‘travel writers’ responsáveis pelo blog Juntando Mochilas.

 

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