Você já imaginou saborear uma bela cartola enquanto conhece um lugar que já foi palco de grandes debates políticos e culturais do passado? Ou já se imaginou usando a mesma cadeira em que já se sentou um ex-presidente do Brasil?

Restaurante mais antigo em funcionamento no mesmo endereço do país, o Leite, que fica na Praça Joaquim Nabuco, ali bem pertinho da Casa da Cultura, é desses lugares em que você respira história. É impossível sair indiferente, tanto pela gastronomia caprichada, quanto pela atmosfera de túnel do tempo.

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Foto: Divulgação

Fundado em 1882, ou seja, há 136 anos, o local ficou famoso por suas receitas, como a cartola e o filé Chateaubrind. No entanto, é sua longevidade, afinal já atravessa o terceiro século, e o fato de ter sido reduto político e cultural de figuras eminentes da História recente do país – e nem tão recente assim –  que colocam o Leite em posição de destaque na memória do recifense.

Senta, que lá vem História

Entre os fatos políticos que marcam sua trajetória, um dos mais notórios, e que movimentou a cena política do país, é o fato de que o restaurante, por muito pouco, não foi o cenário da morte de João Pessoa, então presidente da Paraíba. O governador do estado vizinho era uma das mais notórias figuras políticas da época e esteve no Leite no dia de sua morte, 26 de julho de 1930.

Foi no Leite a última reunião política daquele que  havia sido candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas. Getúlio perdeu para Júlio Prestes, teve então  início a Revolução de 30, João Pessoa não quis fazer parte, mas não foi por isso que foi assassinado.

João Dantas, o assassino, que iria lhe encontrar horas depois do almoço no Leite na Confeiraria A Glória, na Rua Nova, era seu adversário político na Paraíba. Segundo consta, foi um crime em defesa da honra. João Pessoa teria divulgado cartas trocadas entre Dantas e sua amante. Mas já estamos tergiversando demais, voltemos à história do Leite.

O hype de uma época

Quando um lugar se torna o hype do seu tempo, e de outros tempos também, acaba sendo endereço certo de figurões em passagem pelo Recife.

Assis Chateaubriand, o Chatô, um dos maiores magnatas da Comunicação que o país já viu, era habitué do Leite. Tanto que virou receita, o filé chateaubriand, copiada em restaurantes Brasil a fora. No prato, o filé mignon recebe molho madeira, cebola, tomate, ervilha, presunto e champignon, sendo  servido com arroz à grega e batata palha.

O restaurante que inaugurou nos últimos anos do Brasil Império e viu surgir a República, recebeu praticamente todos os presidentes do Brasil desde então. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek já almoçaram por lá. Os do Brasil atual também. Imagina o que essas paredes não falariam, se pudessem…

Entre intelectuais, as receitas, como a peixada e a cartola, também faziam sucesso. Gilberto Freyre tinha um carinho especial pelo Leite, chegou a citá-lo em Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife. Burle Marx, que criou vários projetos de paisagismo para o Recife, como a Praça de Casa Forte e a Praça do Derby, também era cliente cativo do Leite.

O Leite foi o primeiro investimento da família Dias, de origem portuguesa, no setor da gastronomia. O restaurante estava totalmente falido quando foi adquirido, em 1956, pelos irmãos Armênio, Amadeu e Luiz Dias e o amigo e sócio Hugo Laprovítera.

Patrimônio histórico-político-gastronômico-afetivo do Recife, o Leite segue firme e forte na Praça Joaquim Nabuco, 147, Santo Antônio. Abre só para o almoço, das 11h às 16h, de domingo a sexta.

O Café Lamas, no Rio de Janeiro, surgiu em 1874, portanto é ainda 4 anos mais antigo que o Leite. No entanto, em 1974, precisou mudar de endereço, o que faz do Leite o mais antigo em funcionamento no mesmo endereço.

*Post atualizado às 9h13 do dia 28 de agosto de 2018.