Está aberta a temporada de engorda e de acúmulo de gordura no fígado. Estamos naquele mês mágico no qual, mesmo que tenhamos a máxima certeza de que nada em nossas vidas mudará, inventamos um futuro completamente novo – e bebemos.

Também aumentamos as pequenas vitórias acumuladas durante o ano. Colocamos duas doses extras de açúcar nas nossas lembranças – e bebemos.

Numa súbita tomada de consciência budista, percebemos que o mundo pode sim acabar a qualquer momento, pois existem várias formas individuais e próprias para que isso ocorra, inclusive o inferno está acontecendo exatamente agora para milhões.

Diante de toda essa dor possível e inconscientemente acumulada, e com a convicção de que escapamos mais um ano, reunimos os amigos, estes pretensos sobreviventes – e bebemos.

Crie porcos, mas não crie expectativas

Sem pensarmos na náusea da segunda, nas palavras que não virão quando balbuciarmos pedidos de desculpas pelos nossos exageros e demônios largados nos bares alheios –  bebemos.

Nunca mais eu bebo ontem

Dezembro é o mês internacional da ressaca e eu estou sofrendo as consequências de uma neste momento. Sinto uma neurose repetida, o teclado informa uma letra, a tela apresenta outra, aos poucos, alguma coisa com cara de texto parece nascer. Mas meus poros não param de trabalhar numa sudorese ininterrupta e tudo passa mais lento que a febre.

Já se foram trinta e três chás e setecentos pedidos de desculpas no WhatsApp. O maior problema é que não tenho um contato direto comigo via qualquer meio eletrônico para perdoar-me.

Resta-me apenas aquela única promessa alcançável na prateleira de palavras para alguém nesse estado ¨parei de beber¨. Essa frase é real, pois vem da boca branca e seca de um desidratado e estes não mentem.

Para aumentar a componente de drama lembro que em condições de privação de alimento e bebida, morremos antes de sede do que de fome. Então essa frase carrega o suplício da morte.

Amanhã tem mais!

Como amanhã tenho outra confraternização etílica marcada, estou impossibilitado de morrer hoje. Então preciso me recordar que alguns povos na Antiguidade, quando ainda estavam descobrindo o processo de produção da cerveja, embriagavam-se em nome de um ritual de purificação.

Os egípcios, inclusive, a ofertavam para os deuses e faraós. A ressaca podia ser considerada apenas os efeitos provisórios da morte num corpo que daria luz a um novo espírito no dia seguinte. Sendo assim, o que não seria dezembro, senão um mês inteiro dedicado à renovação espiritual?

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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