A banda Devotos tem uma das trajetórias mais marcantes da música pernambucana. Em quase 30 anos de existência, o “punkrockhardcore” do Alto José do Pinho já foi ouvido nos quatro cantos do mundo.Mas, além da musicalidade inconfundível, há algo de muito marcante na história do grupo: a identidade visual.

E é isso que poderá ser visto em “A Arte é um manifesto – 30 anos de Devotos”, exposição de Neilton, guitarrista (e homem de múltiplos talentos) da Devotos. A mostra será inaugura hoje (quarta, 9), às 19h, no Museu de Arte Modena Aloísio Magalhães – Mamam, na Boa Vista.

Até o dia 15 de julho, o público poderá conferir 60 peças, entre quadros criados por Neilton para os projetos gráficos dos CDs e vinis da Devotos, backdrops, pôsteres, ingressos e capas de fitas demo, entre outros.

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(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Paralelamente à função de guitarrista, Neilton também assumiu na Devotos uma importância decisiva na imagem da banda. Também desenhista e designer, ele foi o responsável por toda a criação visual do grupo ao longo de sua trajetória.

O modus operandi de toda a criação visual que Neilton dedicou à Devotos é bem marcante na mostra. Uma arte independente, punk, feita ao modo do it yourself, com um apuro estético impressionante.

A vivência e o interesse pelas artes visuais, acabou fazendo com que Neilton, naturalmente, tomasse para si o papel de “salvaguardar” essas relíquias. “O panfleto do 1º show do Devotos, quando eu nem tocava ainda, peguei e guardei na minha pastinha e lá ficou, nunca dobrei nem coloquei no bolso. E está intacto, sem nenhum dobra”, conta.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Essa e outras raridades são encontradas ao longo da exposição, que traz um detalhe interessante: ao contrário da maioria das mostras de arte, em que se convenciona um background predominantemente branco, a de Neilton traz todo o fundo preto. “É para trazer justamente essa identidade do rock, do peso, que é característico do som da Devotos”.

O desejo de fazer a exposição vem desde a comemoração dos 18 anos do Devotos. O tempo passou e acabou não rolando. “Doze anos esperando pra fazer essa exposição. Mas eu acredito que tudo tem seu tempo pra ser feito. O tempo de fazer essa exposição era agora mesmo”.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

A exposição

A mostra se distribui em quatro salas de dois andares do Mamam. Na primeira, aquarelas e telas que serviram de base para os projetos gráficos dos discos Agora tá valendo (1997); Devotos (2000); e a Hora da Batalha (2003), além da réplica de um backdrop utilizado nos shows e outros elementos como o corpo da primeira guitarra de Neilton e o primeiro baixo de Cannibal, “jogados” entre cases.

Na segunda sala acontece uma imersão nos shows da Devotos através de uma intervenção audiovisual: em três backdrops pintados por Neilton são projetados três vídeo mapping do artista multimídia Gabriel Furtado (Media Sana/VJs Retinantz), que utiliza obras de Neilton como conteúdo, com o som da Devotos rolando ao fundo.

(Foto: Reprodução)

No segundo andar, estão quadros e trabalhos visuais desenvolvidos para os projetos gráficos dos CDs Flores com Espinhos para o Rei (2006) e Póstumos (2012); e do LP Victoria (2010), primeiro vinil da banda, lançado na França.

Também no segundo andar são exibidos vários clipes da Devotos e o documentário Punk Rock Hardcore (1995), de Adelina Pontual, Cláudio Assis e Marcelo Gomes.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

A exposição ainda apresenta fitas demo, CDs, vinis, camisetas e vários cartazes desde os anos 1980, tanto os criados por Neilton quanto o que ele vem colecionando ao longo dessas três décadas.

“A Arte é um manifesto – 30 anos de Devotos” conta com acessibilidade. A legenda das peças estará disponível também em braile, assim como haverá ambientes da exposição com audiodescrição.

O artista

O desenho veio antes da música na vida de Neilton. Ainda criança, diante dos desenhos animados de TV, ele queria reproduzir em papel o que via na tela. Hanna Barbera e desenhos japoneses foram a primeira inspiração.

“Com o passar do tempo, eu fui me encantando com essa história de desenhar e fui entendendo melhor”, conta. Autotidata, foi na prática que ele se desenvolveu como artista visual. “A minha escola era isso: banca de revista, sebo, televisão e a observação”.

(Foto: Eric Gomes)

Ainda adolescente, entrou em cena o Neilton músico. Mas o desenhista não ficou pra trás. E foi justamente nas bandas que fez parte que ele aplicou o que vinha aprendendo com artes visuais, desenhando as capas das demos, cartazes e outros elementos visuais.

E na Devotos foi que Neilton desenvolveu com mais apuro sua técnica e encontrou um traço próprio, que se mostrou presente ao longo da história da banda, quando ganhou carta branca de Cannibal e Cello Brown para ficar à frente dos projetos gráficos dos discos do grupo.

(Foto: Reprodução)

A realidade de jovem pobre da periferia foi um incentivador da sua arte, considera Neilton. “Se eu tivesse dinheiro, eu não teria acreditado que era capaz de fazer projetos gráficos e teria pago alguém pra fazer. Se eu tivesse dinheiro, eu teria comprado as melhores guitarras do mundo antes de optar e ter entendido que era mais interessante eu fazer”, diz.

“O habitat, as situações, as necessidades e ausência são justamente os motes para o Devotos criar. E eu, por consequência, participo de toda essa criação”, complementa ele.

Exposição A Arte é um Manifesto – 30 Anos de Devotos, de Neilton
De 9 de maio a 15 de julho
⏰ Abertura: Quarta (9), às 19h
? Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) | Rua da Aurora, 265 – Boa Vista
? Entrada gratuita