O prédio destaca-se em meio à vizinhança deteriorada da Rua do Hospício. Depois que a fachada ganhou uma mão de tinta no fim do ano passado, a beleza ficou ainda mais evidenciada.

Há quase 40 anos, é “cotado” para receber o Memorial da Engenharia de Pernambuco, como lembrou, em janeiro de 2017, o Jornal do Commercio.

Na época, foi noticiado que o projeto seria executado, começando pela recuperação de fachada e da coberta.

Porém, a pintura nova foi iniciada, mas só abrangeu a face que dá para rua. As laterais continuam cobertas por tinta velha, ressacada e manchada. E não se observa modificações no interior.

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Se vier a ser concretizado, o Memorial será o primeiro do gênero no Brasil.

Antiga sede de cursos de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, a construção data da década de 1940 – foi concluída em 1945, substituindo a casa que abrigava os cursos desde 1919.

O imóvel original havia sido doado pelo então Governador do Estado, Manoel Antônio Pereira Borba (1864-1928), depois que a sede anterior foi vendida.

O artigo “Quando a cidade era universitária: a geografia da Univer-cidade do Recife antes da construção do campus da UFPE”, de autoria, Denis Antônio de Mendonça Bernardes e Juliana Melo Pereira, informa o seguinte sobre a Escola de Engenharia de Pernambuco:

O movimento para a criação de uma Escola de Engenharia no Recife se fortaleceu ainda no fim do século XIX. Formar engenheiros era marchar para o progresso, era formar profissionais que iriam atender
a demanda por infra-estrutura e modernização das cidades – construção de estradas, grandes estruturas, fornecimento de energia, etc.

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Além disso, era poder romper definitivamente com algumas marcas do Brasil atrasado e colonial que perduraram durante o Império.

A Escola de Engenharia de Pernambuco foi criada em 1895, teve sua primeira sede em um prédio na Praça da República, no Bairro de Santo Antônio, onde permaneceu até ser extinta pelo governador Sigismundo Gonçalves, em 1904, alegando dificuldades financeiras de mantê-la.

Apesar do obstáculo, a escola não se manteve fechada e ressurgiu como Escola Livre de Engenharia de Pernambuco, mantida por particulares, no mesmo casarão que abrigara outrora a Faculdade de Direito, na Rua do Hospício. Eram oferecidos cursos de Engenharia Civil e Agronomia. Em 1919, este prédio foi vendido e a Escola obrigada a mudar de endereço.

Nesta ocasião o então Governador do Estado, Manoel Antônio Pereira Borba (1864-1928), fez a doação da casa na Rua do Hospício, nº. 371. A escola ampliou seu quadro, passou a oferecer o curso de Química Industrial e Engenharia Elétrica. Em 1943, este edifício foi demolido e outro construído no mesmo local, para atender de forma mais adequadas às necessidades da escola.

Inaugurado em 1945, o novo prédio foi sede das faculdades de engenharia até 1966. Em 1967, os cursos foram transferidos para o campus da UFPE na Várzea.

O edifício tem três pavimentos e conta com 3,3 mil metros quadrados de área, 33 salas e auditório para 200 pessoas. Depois da saída dos cursos de engenharia, a construção foi sede do curso de Administração da UFPE, Diretório Central dos Estudantes da UFPE e ainda do Ginásio Pernambucano (escola da rede estadual de ensino). Desde 2013 está sem uso.

A ideia de criação do Memorial de Engenharia vem desde 1982. Uma publicação do site da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica informa:

O Memorial de Engenharia de Pernambuco, idealizado em 1982 pelo professor da Álvaro Alves Camello, voltou à discussão em 2004. Durante encontro da comissão idealizadora com o (então) reitor da UFPE, professor Amaro Lins, as propostas puderam ser apresentadas. Em 2006, cerca de 20 reuniões garantiram a concretização da ideia. Em 2007, a Comissão apresentou o relatório de propostas que em 2009 receberam o pontapé inicial.
Construído no prédio da primeira instituição de engenharia do Norte e Nordeste e quarta instituição do país, o Memorial contará com três setores – Centro de Estudo e Pesquisa da História da Engenharia em Pernambuco, Centro de Informação de Ciência e de Tecnologia de Engenharia e Centro Cultural.

Em agosto do ano passado, texto do site do Sindicato de Engenheiros no Estado de Pernambuco destaca:

De acordo com o presidente da Associação Memorial da Engenharia e coordenador de implantação do Memorial, o engenheiro e professor Maurício Pina, o espaço contará com um museu, com peças e instrumentos antigos, uma biblioteca, com preciosidades bibliográficas da engenharia, um auditório, onde funcionará o Núcleo de Educação Continuada da UFPE, com cursos, palestras e seminários, e um Centro Cultural. “Será como uma casa que simboliza a engenharia pernambucana”, enfatiza Pina.

Ainda de acordo com Maurício Pina, é esperado que o Memorial abra suas portas para o público até o final deste ano. “Estamos realizando a primeira etapa da reforma estrutural do prédio, que consiste na recuperação da coberta. Em seguida, iniciaremos a pintura do prédio e a recuperação das instalações elétricas e hidráulicas, para começarmos a ocupar o prédio e abrir as portas do Memorial para a sociedade”, explica o professor e engenheiro.

A previsão de inauguração do Memorial para até o final de 2017, como se viu, não ocorreu.

Que a ideia saia, de fato, do papel e que o prédio – de linhas clássicas, com colunas e grandes portões – seja recuperado, ganhe ocupação, dialogue com a cidade e contribua para reoxigenar o centro do Recife. Que as obras prossigam e garantam a preservação da memória da UFPE da Engenharia em Pernambuco.

De suas andanças pelas ruas do Recife, o jornalista Josué Nogueira criou o site Antes que Suma: uma forma de documentar o patrimônio arquitetônico e afetivo da cidade. Parte do conteúdo do site também é disponibilizado PorAqui.

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