Incrustado entre grandes edifícios da Boa Vista e encurtando o caminho entre as ruas Sete de Setembro e Hospício, o Beco da Fome é um dos lugares mais simbólicos do centro da cidade. Do apogeu da boemia recifense à chuva de sacos de lixo promovida por prédios vizinhos, o local continua vivo, resistindo às intempéries ao longo dos anos.

O Beco da Fome já concentrou metaleiros, hippies, movimentos sociais, e foi esconderijo para adolescentes que matavam aula. O momento exato em que a famosa travessa se tornou ponto de encontro dos mais diferentes grupos parece incerto, embora os registros apontem esse fluxo desde o início dos anos 1950.

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(Foto: Manuel Borges)

Crimes relacionados ao tráfico de drogas e acidentes fatais por conta de objetos atirados do alto dos prédios são passagens tristes que também fazem parte da trajetória do beco. A degradação e o abandono do Beco da Fome pelo poder público são as principais queixas por parte dos que ainda frequentam o lugar e, também, a justificativa dada por quem já o abandonou.

Os motivos que provocam afeição e, ao mesmo tempo, estigmatizam o beco, diante do ele que representa para o Centro do Recife, é uma questão que só pode ser respondida quando se faz outra pergunta: qual é o tipo da sua fome?

Fome de quem trabalha

Preço, proximidade, fidelidade. São esses os motivos que levam tantos trabalhadores do centro da cidade ao Beco da Fome na hora do almoço. O local possui lanchonetes e restaurantes com preços tão populares quanto o cardápio servido. A viela, que é movimentada dia e noite, durante a semana toda, reúne ainda depósitos de bebida e gás, casas de apostas, bodegas e bares.

(Foto: Manuel Borges)

Fome de quem torce

Os bares, por sinal, são a principal força que mantém o Beco da Fome vivo. Um dos mais antigos estabelecimentos do lugar – e que faz o beco lotar durante transmissão de futebol – é o Bar do Timão, ponto de encontro de torcedores do Corinthians, fundado em 1990.

(Foto: Manuel Borges)

O bar foi uma iniciativa do paulistano Fernando Farias, que decidiu reunir torcedores em um espaço totalmente dedicado ao timão. Falecido em 2003, Fernando passou a braçadeira de capitão para a sua esposa. Desde então, dona Vera Lucia comanda o estabelecimento.

Fome de quem tem fome

Pessoas vivendo em situação de rua são uma questão social do Brasil inteiro. No Recife, é possível acompanhar de perto e com mais evidência no centro. Para ter uma noção, no ano de 2016, o Ministério Público Estadual contabilizou mais de 3 mil pessoas nas ruas da capital, enquanto a Prefeitura disse ser pouco mais de 970.

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Seja o número que for, o Beco da Fome reflete bem essa realidade. Por ser um lugar de movimentação de pedestres e comercialização de alimentos, é natural que atraia pessoas que utilizam ruas e praças como espaço de moradia. Encontrar pessoas pedindo dinheiro e dormindo no beco se tornou tão natural que, às vezes, passa despercebido.

(Foto: Manuel Borges)

Reduto de tribos e refúgio de desabrigados, o Beco da Fome é capaz de despertar diversas sensações. Desprezo ou alegria. Nojo ou euforia. Mas, sejam quais forem os sentimentos que se tenha em relação ao lugar, uma coisa é certa: é impossível ser indiferente a ele.

Por Manuel Borges

Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.

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