Olá meninas, olá meninos. Vamos lá?! Bom dia!

É assim que Severino dos Ramos da Silva, vulgo Biu, como não poderia deixar de ser, lhe receberá no elevador do edifício Antônio Silva Oliveira, localizado no coração do Recife Antigo.

Lá, Biu exerce a função de ascensorista há cerca de 15 anos. Todo dia está com um sorriso acolhedor e rodeado de uma energia quase tocável. O Recife Antigo carrega tesouros incríveis, Biu certamente é um deles.

O amor em tempos de graxa

Em que outro lugar você pode desfrutar da experiência de ingressar num elevador antigo, daqueles ornamentados com uma porta pantográfica, aquelas com dobradiça de ferro, e operado por uma maçaneta? Em que outro lugar você tem a oportunidade de exercitar sua memória e relembrar o significado dessa bela palavra, ascensorista?

Toda vez que vou almoçar no saborosíssimo, sortido e honesto Restaurante Brasiliano tenho o prazer de ser levado por Biu até o primeiro andar. É uma pena a viagem ser tão curta, quase um sacrilégio. Severino dos Ramos da Silva tem muita história para contar e muitos ensinamentos para serem compartilhados.

Partiu do Cariri paraibano aos 21 anos para tentar a vida no Rio de Janeiro, lá teve que deixar os estudos devido às exigências do trabalho. Quando a mãe faleceu, voltou de vez para o Nordeste, deu um jeito de completar o ensino médio e aos 45 anos ainda não desistiu dos planos de fazer uma Faculdade de Direito.

Sobre o tempo e seus sins

Biu é de uma delicadeza e educação rara, ele cuida das pessoas e distribui simpatia. Tem opiniões fortes, tem convicção, mas principalmente tem apreço especial ao diálogo e ao respeito. Acredita que educação vem sobretudo de casa, vem principalmente da forma que as pessoas são educadas na infância. Acha que a cidade grande é corrosiva e prejudicial a humanidade, parece guardar algum saudosismo legítimo do Cariri.

O Recife Antigo é feito dessas preciosidades, assim como a vida mundana é feita de Severinos. Os mesmos Severinos de “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, os mesmos Severinos que emigram, os mesmos que lutam, mas também os mesmo que vencem.

Severino dos Ramos da Silva, na tarde de uma semana qualquer, será a melhor visão que você terá no seu dia do Brasil que funciona, tem esperança e segue. Exerce com paixão sua profissão, entrega uma experiência positiva e fortifica a rotina. Tem a fala mansa e a respiração cadenciada, mostra-se um homem conhecedor de si e da vida e isso pra mim é o símbolo maior de sucesso.

O Restaurante Brasiliano fica na Rua Álvares Cabral, 155, Recife Antigo.

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

 

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