* Texto por Xico Sá, jornalista e escritor

A bolsa das modas & modinhas, a bolsa do dinheiro, do consumo, das joias, do rame-rame cotidiano, a bolsa das utilidades tantas, a bolsa em versão 007, a bolsa ou a vida, a bolsa ou a campanha publicitária, a bolsa petrificada e reabastecida de significados, a bolsa como retrato do feitiço da mercadoria, a bolsa e a brutalidade da pedra em flerte com uma ideia
perdida de delicadeza.

As bursas do corpo humano reduzem o atrito entre articulações e ossos. As bolsas de pedra do artista Ramsés Marçal incomodam os cinco sentidos, como se puxassem seus eventuais portadores ao rés do chão. Há um humaníssimo recado existencial: essa aparência pesa e o trabalho de conduzi-la é digno de um Sísifo.

As fotos que remetem a uma suposta campanha publicitária – o artista-modelo e suas bolsas petrificadas – expressam nas suas contradições algo como nos versos do “Super Homem” de Gilberto Gil: “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria/ Que o mundo masculino tudo me daria/ do que eu quisesse ter”. O peso e o contrapeso entre o estado bruto e o modo
delicado.

Ramsés nos põe a tiracolo a obrigação do real e o fardo do ilusório. Difícil se livrar de um dos dois sentimentos ou sensações. Não dá para abrir a bolsa e simplesmente descartar o peso destes signos petrificados. É bronca estética para esquentar as válvulas do velho juízo. Ainda bem, assim é que se faz o assombro da grande arte.


Bursa | Ramsés Marçal
Terça, 11 de dezembro
A partir das 18h
Mercado Capitão (Rua do Lima, 124, Santo Amaro, Recife/PE)
Entrada gratuita