A única mulher no Circuito da Poesia do Recife é Clarice Lispector, escritora ucraniana que viveu parte de sua infância e adolescência no Recife. Sua estátua encontra-se na Praça Maciel Pinheiro, na Boa Vista, onde também está a casa onde morou.

Graças aos nossos leitores, ficamos sabendo da existência de outra mulher no Circuito da Poesia. A jornalista e poetisa Celina de Holanda, cuja estátua fica no bairro da Torre. Lembrando que o PorAqui é uma rede de conteúdo colaborativa. Se você tiver dicas, sugestões e informações pra gente, é só entrar em contato, no email colabore@poraqui.news ou pelo WhatsApp (081) 98173-9108.

Circuito da Poesia: quem foi Celina de Holanda

Neste mês da mulher, o PorAqui pensou em dar um upgrade no Circuito da Poesia. Convidamos uma mulher da Literatura local, a poetisa Luna Vitrolira, e pedimos para ela indicar nomes de outras escritoras que poderiam muito bem integrar o circuito.

foto: Carol Melo

“Ainda é muito comum ouvir dizer por aí que são poucas as mulheres que fazem literatura; pior, ainda é comum naturalizar esse discurso. Acredito que, mesmo sendo consideradas minoria, não somos poucas”, diz Luna. “Vejo muitas mulheres atuando de maneiras diferentes: escrevendo, declamando, performando, editando, publicando outras mulheres”.

Luna Vitrolira, em apresentação do espetáculo “A Dita Curva” (Foto: Carol Melo)

Ela considera que os tempos de agora são de virada de mesa nesse sentido e que as mulheres têm “amplificado sua voz”. Como exemplo disso, cita Luna, estão a repercussão do Slam das Minas, no Recife, e nomes como Dayanne Rocha e Francisca Araújo, no Sertão Pernambucano. Jovens mulheres que, segundo a poetisa, “já chegaram com o poder da palavra em seu estado apurado”.

“O que falta na verdade são olhos atentos e mentes menos conservadoras para enxergar e reconhecer essa mulheres como escritoras, artistas, profissionais, com valor estético e, portanto, literário”, chama a atenção.

Luna conta que a atual geração está mais ligada à força da palavra dita. “Acredito que estamos mais preocupadas em dizer, em comunicar, estar em contato direto com as pessoas para sermos ouvidas; somos parte de uma geração que valoriza a oralidade, a fala”.

Slam das Minas (Foto: Jan Ribeiro/Secult-PE)

Para Luna, a “invisibilidade” das que publicam se deve ao conservadorismo de quem não vê, “talvez porque ainda seja difícil para as pessoas mais conservadoras reconhecerem formas de publicação alternativa e artesanais como oficiais”, considera. “Penetrar no mercado editorial ainda é bastante difícil e ter projeção como escritora também não é fácil, mas isso não quer dizer que não tenha escritoras potentes no Estado”.

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Circuito Feminino

Recorrendo à intuição, Luna citou uma lista expressiva de importantes nomes da literatura local que poderiam equilibrar essa balança de gênero no Circuito da Poesia.

Do universo imenso de escritoras locais, ela citou: Tereza Tenório, Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, Janice Japiassu, Suzana Brindeiro Geyerhahn, Lourdes Sarmento, Bartyra Soares, Cida Pedrosa, Silvana Meses, Graça Nascimento, Severina Branca, Lucila Nogueira, Micheliny Verunschk, Márcia Maia e Marilena de Castro. “Coloco aqui 14, mas alerto que essa lista cresceria imensamente”, enfatiza Luna.

Destas, Luna discorreu sobre três:

Graça Nascimento

Graça Nascimento (Foto: Reprodução/blog “O Mar da Poetisa”)

“A poesia de Graça Nascimento é ousada. Desafia as pessoas e seus pudores. Do mesmo jeito é a sua voz, arranha o pensamento. Graça é de Canhotinho, do mundo e, sobretudo, dela mesma”, comenta Luna.

“É intensa, aponta o dedo na cara, escreve o que sente desde criança. Trabalha temas que poucas pessoas têm coragem para desenvolver. Seus versos, há muito, dizem o que hoje parece ser novidade. Graça provoca e certamente incomoda. Os livros dela são como uma tapa sem mão”.

Severina Branca

Severina Branca (Foto: Reprodução/Youtube)

“Dizem que é uma lenda viva do Pajeú, por ser uma poeta que foi prostituta das mais famosas e desejadas do sertão. Ela não é uma lenda. Ela é uma mulher que sempre precisou ser forte para sobreviver às condições mais adversas pelas quais passou; e ainda vive em pele e poesia”, destaca.

“Ler Severina Branca é tocar na realidade de muitas mulheres que foram e são submetidas à servidão (social, sexual, financeira, intelectual). Sua poesia é forte e real”.

Tereza Tenório

Tereza Tenório (Foto: Reprodução)

“É uma poeta da Geração 65 da qual pouquíssimo se fala. Sua obra é atravessada pela natureza, pelo universo místico, enigmático. Uma poesia que valoriza ao extremo o signo e as significações do mistério; cheia de sombras”, exalta Luna.

“É uma voz de outro mundo, de outro plano e, talvez, por isso, muito evoluída. É uma poesia que tem voragem; é precisa, fluída e se comunica com o que há de mais íntimo nas pessoas”.