Sempre que um novo desabamento acomete o casario do Centro do Recife, a discussão sobre a conservação do patrimônio volta à tona. Enquanto se procuram os responsáveis pelas tragédias, entidades promovem iniciativas que buscam preservar e recuperar uma das áreas mais importantes da cidade.

Um desses braços da sociedade civil que corre contra o tempo para deter a queda das paredes e, consequentemente, da história do Recife é a ONG Civitate. Atuando desde 2002, a instituição promove a recuperação de áreas urbanas degradadas, cobrando proteção ambiental aos órgãos públicos e valorizando o tecido cultural.

Chuvas, desabamento e tristeza: o casario secular do Recife morre aos poucos

Sede da Civitate (Foto: Manuel Borges/Colaboração)

O objetivo da Civitate é ressignificar os espaços dos bairros da Boa Vista, São José e Santo Antônio, devolvendo a qualidade de vida aos moradores e incentivando a reocupação responsável das edificações.

De acordo com o presidente da ONG, o professor e escritor Jacques Ribemboim, não há qualidade ambiental e estrutural nas áreas do centro, por isso o casario histórico acaba subutilizado por lojas ou de portas fechadas.

“Hoje não existe orientação para a coexistência entre moradias e comércio tradicional. Nunca houve iniciativa com esse foco”, completa Ribemboin sobre o domínio da finalidade comercial sobre a residencial na Boa Vista.

Jacques Ribemboin (Foto: Manuel Borges/Colaboração)

Vocação residencial da Boa Vista

(Foto: Manuel Borges/Colaboração)

“O Centro do Recife precisa de morador.” A partir dessa premissa, a Civitate entende a fuga das pessoas da Boa Vista como consequência da falta de qualidade de vida na área. A insegurança, pouca iluminação e péssima conservação acabam gerando abandono dos imóveis por parte dos proprietários. Com o crescente desinteresse da população, os prédios permanecem fechados.

(Foto: Manuel Borges/Colaboração)

“É um ciclo vicioso: um prédio abandonado é ocasionalmente ocupado por moradores que, normalmente, não têm como custear sua manutenção, gerando mais depreciação e novos abandonos. Muitas vezes causando tragédias como as que vimos recentemente”, diz Ribemboim referindo-se ao desabamento do casario na Rua da Matriz, no último dia 30 de abril.

Embora seja uma das localidades mais movimentadas do Recife durante o dia, quem vive no centro percebe bem a diferença após o horário comercial, nos domingos e feriados. Essa sensação de vazio é confirmada pelo Censo Demográfico de 2010, que aponta a baixa densidade demográfica na Boa Vista.

(Foto: Manuel Borges/Colaboração)

O bairro possui apenas 84,15 habitantes por hectare, enquanto em Boa Viagem esse número salta para 163,17 habitantes por hectare. Outros bairros como Casa Amarela (155,09 h/h), Água Fria (225,38 h/h), Arruda (145,56 h/h) e Torre (152,68 h/h) demonstram como a Boa Vista vive sem moradores.

De acordo com Ribemboin, só através de ações planejadas e executadas de recuperação e preservação do Centro será possível evitar a evacuação e despertar novamente o interesse por morar na Boa Vista.

“O assunto é sério e não entendemos o porquê da omissão do poder público em sucessivos governos. Mas acreditamos ser possível reverter a decadência nos bairros centrais”, completa ele.

Festas para chamar atenção

(Foto: Divulgação)

Além das ações de revitalização, como a já realizada recuperação das fachadas das casas da Rua Velha, a Civitate conta com um calendário de eventos para promover o debate e chamar atenção da sociedade para as questões do Centro do Recife, sempre contando com os recursos provenientes de seus 200 associados.

(Foto: Divulgação)

Um desses encontros acontece durante o Carnaval, quando o bloco Grito da Véia, parte da Rua Velha e percorre o bairro da Boa Vista, levando a mensagem de conscientização ambiental e patrimonial através da folia.

O São João da Alegria, em homenagem à Rua da Alegria, e o Natal da Glória, na Rua da Glória, também utilizam festas populares para atrair olhares sobre os questionamentos dessas localidades.

A Civitate acredita ser possível devolver à Boa Vista sua capacidade de acolher nativos e adotados, tornando o Coração da Cidade mais aconchegante e não apenas local de passagem. Um coração daquele tipo que sempre cabe mais um. ❤

Civitate
Rua Velha, 252 – Boa Vista
(81) 3222-0368
Facebook: /civitate

Por Manuel Borges

Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.

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