Livros escondem histórias, na maioria dos casos é só abri-lo e lê-las. Todavia, também trazem histórias que não são relevadas com a passagem das páginas – e são essas histórias que quero contar a partir de então. Crônicas editoriais, ou, como cabem muitos livros dentro de um livro.

Antes, permito-me uma breve divagação teórica sobre o conceito de bom encontro e seu opositor, o mau encontro. Bom encontro é todo aquele que promove a potência, o sorriso, o aconchego, mesmo depois de 10h de trabalho. O mau encontro é sempre já uma captura do poder, sempre dissimétrico, hierarquizado, depressor de potência. Nem preciso comentar a raridade dos bons encontros.

Divagação feita, vamos ao livro!

Na época, o espaço Mau Mau, no Espinheiro, Zona Norte Norte do Recife, sediava a Livrinho de Papel Finíssimo Editora. E lá estávamos eu e Camilo, ao som randômico e envenenado da playlist do mago: Ramones, Motorhead, Bob Marley, alguma banda de punk que só ele conhecia, Billye Idol, AC/DC.

Tudo muito intranquilo e louco: era o nosso segredo para manter a concentração necessária para o bom andamento do trabalho editorial. Camilo diagramava uns quatro livros ao mesmo tempo; eu terminava um roteiro, uma leitura crítica, a organização de um livro – ou só respondia a e-mails, não lembro. Mas, isso tudo era possível.

Eis que bate à porta Mayra e nos apresenta Daniel, que havia acabado de chegar ao Recife para ministrar uma oficina de encadernação artesanal. Todos nós tínhamos sede, o bar foi nosso destino inexorável.

Acho que não bebemos nem seis cervejas e pronto, já havíamos decidido: faríamos um livro! E antes da décima cerveja, o título: Histórias Sujas e Mal Acabadas do Rock’n’Roll. Uma coletânea de crônicas, contos, poemas, ilustrações.

Depois do brainstorming alcoólico há, é claro, ressaca. Muitas vezes a ressaca leva consigo todos os insights, todas as ideias grandiloquentes – e todo o papo de uma noite se vai na primeira pontada de dor de cabeça. Nada disso aconteceu. Então era verdade: teríamos um livro e precisávamos definir tudo isso em pouco tempo – pois Daniel, mestre artesão que montaria o livro conosco, dentro de poucas semanas, retornaria a Curitiba.

E agora?

Quem escreveria no livro? Quais os prazos? Revisão? ISBN? Como faríamos tudo assim tão rápido? E, já que seria um livro temático, como diagramar tudo isso a tempo?

Em meio a todas as dúvidas, o livro só aumentava – falando em termos oníricos. E eis nossas decisões: tudo seria frenético, distorcido, gritado e louco! Então, editorialmente, criamos uma playlist com aproximadamente 30 músicas, de gêneros e sub-gêneros variados que orbitassem a História do Rock.

Em seguida, criamos no Facebook um evento, através do qual convidamos diversos escritores e artistas para que eles escolhessem uma música e a usassem como tema para seu escrito ou ilustração. Em uma semana, apenas.

Passou-nos a habitar um pavor típico de quem se joga em um mosh: e se ninguém me segurar? E se ninguém escrevesse, ilustrasse? Se todos fizessem? Ou se, ao contrário, pululassem textos em nosso e-mail? Imprimir e encadernar artesanalmente 10, 20 ou 30 páginas a mais era muito trabalho para uma semana…

Mas o espírito que nos dominava não era de temor, mas somente por um frio na barriga, como aquele que antecede ao choque em uma parede de escudos – a nossa, de papel e tecido, é claro!

Na montagem do livro, contamos com a ajuda de um verdadeiro mutirão de escritores insanos, artistas e amigos: tudo com cerveja, fumaça e muita distorção nas pick-ups! De modo que, em tempo até então inimaginável para nós, conseguimos lançar um belo livro em grande farra, digna do título da obra!

Recentemente recebi dois convites: um de Vi Brasil, para ministrar a oficina Autopublicação, o livro de dentro; e outro para colaborar com o PorAqui. Já havia um tempo que eu ensaiava escrever sobre a apaixonante loucura do processo editorial. Esse tempo começou, e esta é a primeira de muitas crônicas por vir sobre o mistério da materialização de ideias em um livro.

Rodrigo Acioli é editor e escritor da Titivillus Editora