As agendas dos mais diversos movimentos sociais em atividade hoje, no Recife, incluem debates, oficinas, formações, ocupações e atos que buscam discutir propostas sociopolíticas, econômicas e culturais para transformar determinadas esferas estruturais da sociedade.

6 mantras que não saem da cabeça de quem frequenta a Conde da Boa Vista

A tomada simbólica e momentânea dos espaços públicos como forma de visibilidade das causas também faz parte das pautas dos movimentos, e a Conde da Boa Vista, no Centro do Recife, é a via obrigatória para a passagem das manifestações e marchas.

Com pouco mais de 1,5 km de extensão, corredor para dezenas de linhas de ônibus, BRT´s, milhares de pedestres e outros veículos, a Conde da Boa Vista é também o mais importante núcleo de negócios, comércio e serviços do Centro do Recife.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

Se vai haver alguma manifestação, pode ter certeza que passa na Conde da Boa Vista! Por isso, o canal Coração da Cidade conversou com representantes de movimentos populares para saber como as pautas debatidas reverberam e desemborcam nesta avenida, transformada em uma grande passarela de reivindicações. ✊

“É impossível falar em ato no Recife e não passar pela Conde da Boa Vista”

Foto: Kayo Na Real/Reprodução

A Marcha da Maconha talvez seja uma das manifestações que mais desperta curiosidade e impacto ao percorrer a Conde da Boa Vista. Com organização da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas e Coletivo Antiproibicionista de Pernambuco, o ato público é o resultado do debate sobre a legalização, descriminalização e regulamentação das drogas pelo mercado.

Desfilar essas temáticas em via pública é expandir a discussão para vários setores da população.

Foto: Foto Gonçalo Simões/Reprodução

É impossível falar em ato no Recife e não passar pela Conde da Boa Vista. Hoje, o Centro é um palco democrático das forças políticas e é importante que todos os movimentos possam ter esse espaço”, diz Priscila Gadelha, psicóloga e redutora de dano, integrante da Marcha da Maconha.

A apropriação simbólica da principal avenida do centro parece ser um ato de afirmação necessário para garantir a legitimidade e visibilidade das questões levantadas.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

Muitas pessoas têm o sonho de fumar um baseado na Conde da Boa Vista, mostrando que sua forma de viver pode ser, sim, politica e socialmente aceita”, completa Gadelha.

A próxima atividade dos coletivos antiproibicionistas será a Semana Internacional sobre Drogas, quando serão traçadas novas estratégias sobre redução de danos, ampliando o debate em parceria com órgãos de classe, como o Conselho Regional de Psicologia e o Conselho Regional de Serviço Social.

Batucada, direitos e irreverência: abram ala para as mulheres

Transformar a avenida em palco para chamar a atenção da população é uma das principais características da Marcha das Vadias, ação organizada, no Recife, pelo Fórum de Mulheres de Pernambuco e a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA) junto a outros grupos e coletivos.

É para debater o combate à violência contra as mulheres, o feminicídio, a cultura do estupro, descriminalização do aborto e outras pautas feministas que mulheres – e homens – saem às ruas após preparação e fomento de uma nova cultura social entre os participantes.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

A Marcha das Vadias é marcada pela irreverência e performance das artistas que tomam a avenida ao som da batucada, fazendo das múltiplas expressões uma forma de provocação.

Foto: Camila Pifano/Reprodução

Para Marília Nascimento, integrante da Coletiva das Vadias, passar pela Conde da Boa Vista durante o ato permite contato maior com a população. “Realizamos panfletagem, que é o principal diálogo com a população. Estamos na rua para transmitir nossas mensagens e o corpo a corpo é importante”, diz ela.

Por um Centro que sirva às pessoas

Foto: Beto Figueroa/Reprodução

Desde o mês de março deste ano, as ruínas de um hotel abandonado no Centro do Recife dão lugar às ações de uma rede de cuidados para cerca de 300 pessoas integrantes da Ocupação Marielle Franco. Encabeçada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a ocupação busca garantir a habitação como um direito constitucional e cobra do Estado a função social que a propriedade precisa ter.

De acordo com Rud Rafael, assistente social e integrante do MTST, ocupar é uma forma de fazer com que essas famílias sejam vistas e com que a questão do déficit da moradia entre nas agendas de discussões.

Quando se vive em um país no qual existem 7.906.767 imóveis vagos enquanto 6.355.743 famílias precisam de moradia, você percebe que não ter casa não é uma fatalidade, é uma lógica”, diz ele.

Foto: Eric Gomes/Reprodução

A rede de cuidados criada a partir da ocupação inclui ações internas como chá de bebê coletivo, formação de grupo terapêutico para as mulheres, abertura de creches, assim como a realização de protestos nas ruas.

Sobre provocar as discussões sobre a falta de moradia, Rud explica a importância de levar o movimento para a principal avenida do Centro do Recife:

Passar pela Conde da Boa Vista é dialogar com as pessoas e com um sentimento popular que percebe que as coisas não estão boas e certas e que o povo precisa se mobilizar para mudar.”

Foto: Beto Figueroa/Reprodução

Se é no centro da cidade onde as pessoas viabilizam, de alguma forma, o fluxo de suas vidas, nada mais justo que este também seja o local para os entraves do cotidiano serem questionados.

E a vida segue seu curso, enquanto a Conde da Boa Vista aguarda o próximo mar de gente tomar conta do seu tapete de asfalto.

Por Manuel Borges

Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.

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