Quem nunca, pelo menos uma vez na vida, teve a curiosidade de saber o que vai acontecer no dia seguinte? 🔮

Leitura de búzios, de mãos, baralhos, objetos, estrelas – diversos métodos se dizem capazes de prever o amanhã. O futuro revelado nas cartas do baralho ou tarô, por exemplo, é o que promete a cartomancia, arte praticada por tarólogos, cartomantes e astrólogos.

Se hoje estamos acostumados a ver esses anúncios em postes ou paradas de ônibus cotidianamente, saiba que, há algum tempo, as chamadas ciências ocultas eram um serviço requintado e estampava grandes espaços em páginas de importantes jornais.

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Das cartomantes que viveram no Recife no início do Século XX, uma das mais famosa foi Beatriz Janovite. De origem grega e conhecida por Madame Beatriz, ela se tornou popular entre a classe artística e política, chegando a ser a guru mais solicitada durante muito tempo na capital.

Ora nos classificados, ora nas páginas policiais, a passagem de Madame Beatriz pelo Recife rendeu algumas boas e curiosas histórias que o canal Coração da Cidade conta a partir de agora:

O Gabinete das Ciências Ocultas

Foto: Biblioteca Nacional Digital

Foi na Rua do Hospício 155 e, posteriormente, no imóvel de nº 146, na Boa Vista, Centro do Recife, que Madame Beatriz montou seu escritório de atendimento em 1934. Chamado de Gabinete das Ciências Ocultas, o lugar recebia clientes anônimos e ilustres em busca de orientações espirituais e financeiras, tratamento contra alcoolismo e soluções amorosas.

Onde atualmente funciona o estoque de uma sapataria, já foi o “magnífico e luxuoso Gabinete Oriental, único e inédito no Brasil”, segundo anúncio no Diário de Pernambuco, em 1935.

Antigo gabinete de Madame Beatriz na Rua do Hospício (Foto: Manuel Borges/Colaboração)

No Gabinete de Madame Beatriz os clientes encontravam o que havia de mais pomposo. Tapetes, mobília e prataria que remetiam aos diversos países da Europa e Ásia pelos quais a vidente afirmava ter passado durante sua carreira. Para tanto requinte, serviços à altura e “nada de catimbó ou macumba”, segundo sua propaganda. Os clientes contavam com “arte e ciência, conforto e discrição”.

Foto: Biblioteca Nacional Digital

Extra! Extra! Briga de Madames agita o Recife

Uma denúncia anônima enviada ao Jornal Pequeno, em 1935, que acusava Madame Beatriz de charlatanismo e exploração, tumultuou a relação da cartomante com seus clientes e gerou alvoroço entre a população do Centro do Recife. 

Em sua defesa, um grupo de moradores da Rua do Hospício foi à redação do Diário da Manhã interceder por Madame Beatriz.

Foto: Biblioteca Nacional Digital

 Mas o imbróglio ficou ainda pior quando uma nova vidente, a Madame Savdelina, aportou na Capital Pernambucana. E foi nas páginas dos jornais que as Madames Beatriz e Savdelina trocaram acusações e tornaram-se inimigas públicas.

Em um texto publicado em 1936, no Diário de Pernambuco, assinado por Manoel Aristides de Mattos, orientado por Madame Beatriz, Savdelina era chamada de analfabeta e cigana de boteco. Além disso, a publicação acusava Savdelina de plagiar os anúncios de outras videntes.

“Madame Savdelina deve continuar a sua vida de cantar e de dançar e de ler nas ruas a sorte nas mãos dos tolos”, dizia parte do artigo.

Foto: Biblioteca Nacional Digital

Algumas edições depois, o marido de Madame Savdelina sairia em sua defesa:

“A questão […] prende-se só e exclusivamente a uma baixa e mesquinha exploração de uma cigana cognominada Madame Beatriz, que há tempos se tornou inimiga de Madame Savdelina pelo único motivo de invejar os trabalhos de sua rival”, disse Francisco Nicolito ao Diário de Pernambuco, em apoio à esposa.

Madame Beatriz ainda chegaria a ser assunto em tabloides do Ceará, acusada de estelionato, e na Bahia, onde arrumou desavenças com políticos, empresários e intelectuais.

Após sete anos morando e atendendo a clientela no Recife, Madame Beatriz se muda para Salvador, lugar que ajudaria a perpetuar sua presença enigmática no imaginário popular.

De Recife a Salvador

Não demorou muito para Madame Beatriz constituir fama, também, em terras baianas. Frequentemente, políticos e empresários a procuravam em busca de orientações e das suas previsões.

Mas foi após a publicação de Os Pastores da Noite, de Jorge Amado, que um novo capítulo da vida da cartomante seria escrito. É que ela identificou-se de imediato com uma das personagens do livro, que também se chamava Madame Beatriz e era vidente.

O alarde feito por Madame Beatriz na tentativa de mover um processo contra Jorge Amado serviu apenas para aumentar sua própria fama, ao passo que os jornais de Salvador a ridicularizavam em artigos diários.

Seja por coincidência ou não, o fato é que uma certa Madame Beatriz, mística e estelionatária, estava presente no romance de Jorge Amado, um dos mais lidos da época e que se tornaria filme e minissérie anos mais tarde.

Ainda é possível ouvir relatos sobre o que Madame Beatriz representou para sua época. Inclusive por supostos descendentes, que prestam serviços esotéricos online afirmando terem herdado o dom da antepassada.

O que se tem como provar é que Madame Beatriz, ao longo da vida, acumulou seguidores, admiradores e desafetos em meio às leituras de cartas e às notas de jornal. Quanto a sua eficácia e poderes, ou se ela realmente acertava suas previsões, isso já é outra história. 

Por Manuel Borges

Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.

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