De bobeira, passeando ou procurando alguma coisa ali pelo “Centrão” do Recife, nos arredores do Mercado de São José, você é capaz de se deparar com as mais fabulosas figuras! Talvez, você passe batido pelo vendedor de óculos David Brito. Talvez não… se puxar um papo com ele.

O senhor David Brito, 70 anos de idade, há 35 está sentadinho, com sua banquinha e mostruários de óculos, na Rua da Penha, exatamente na esquina do Edifício Siam. Passa o dia ali, vendendo e consertando óculos. Mas ele é muito, mas muuuuito além disso.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Um verdadeiro “showman” das ruas, pertence àquela linhagem de personagens emblemáticos do nosso Recife, um verdadeiro patrimônio popular. Quando soube que eu era jornalista, esqueceu totalmente dos óculos e fez questão de exibir a sua veia artística.

Autointitulado “Compositor Popular do Mercado São José”, David não tem modéstia quando se trata desse dom. “Eu sou compositor, faço música como quem bebe água. E tem para todos os estilos. Já fiz música para Ivete Sangalo, para Zezé Di Carmago & Luciano, para comercial de cerveja”, enumera, orgulhoso. Infelizmente, nunca conseguiu que suas canções chegassem até esses artistas.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Entre uma canção e outra que mostrava, contou da sua vida, do que já fez antes de ter o seu “fiteirinho” de óculos. “Já fui caminhoneiro, taxista, seresteiro, imitava Altemar Dutra. Chegava num bar, começava a imitar e já fazia amizade com as pessoas… a turma toda me aplaudia”, conta.

A boemia que David tanto gosta teve que dar um tempo, pois um problema vocal lhe “presenteou” com uma rouquidão, até então, crônica. “Uma amiga minha já tentou contato com Rodrigo Faro, pra eu mostrar minha arte e conseguir resolver essa minha ‘rouquice’ (sic), fazer um implante dentário”, eis aí a fé que reside em David quando ele encontra alguém “da imprensa” (a primeira pergunta que ele me fez foi: “Você é da Record?”).

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Enquanto a solução dos seus problemas não aparece, ele fica no ponto, rodeado por óculos e manequins, para ganhar o pão diário. “Eu fui menino aqui, minha tia e o marido dela eram do ramo da ótica, nesse mesmo ponto. Cresci, fiquei e estou aqui, há 35 anos”.

“Isso é só pra não malandrar. Se o ‘véio’ parar, o ‘véio’ morre! ‘Véio’ tem que se mexer, quebrar a cabeça com mulher, tem que dançar, tem que sonhar, tem que ser poeta, de tudo um pouco. Aí, tudo funciona: vista, olhos, alegria, rapidez, sexo”, aconselha.

Chico Science

Para quem não sabe, David vendeu óculos para ninguém menos que Chico Science. O artista, falecido em 1997, era consumidor dos produtos de David. Inclusive, fez questão de exibi-lo em uma reportagem que fez para a MTV, no centro do Recife. Confere abaixo:

“Chico só vivia aqui, gostava muito de mim, era meu amigo. Certa vez, ele veio aqui com um pessoal da TV, fez entrevista comigo”, lembra David. “Ele gostava dos óculos grandes, retrôs, antigos”, mostrando alguns modelos similares aos que Chico comprava dele.

“A morte dele acabou com a razão da gente. Ele era pura alegria, simpatia e isso faz falta, né?”, lamenta David.

Casórios

Seu David não chega a ser um Santo Antônio, mas é, também, casamenteiro. Se a intuição dele pescar que tem romance ou desentendimento no ar, ele faz as vezes de padre (ou juiz de paz). “Teve casamento que aconteceu aqui antes do pessoal se casar oficialmente. Tem casamento que tá mal e eu reativo, com a cerimônia que eu faço aqui”, conta ele.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

E me deu exemplo, realizando um casamento meu com a manequim Eva (apenas a cabeça dela, na verdade). Ao lado dela, Adão. Não sei se ele ficou com ciúmes… mas teve toda uma performance de David – com texto, pompa, marcação e, no final, uma dancinha característica sua, “sacramentando” a união.

Enquanto dia vai e dia vem, David, no auge dos seus 70 anos, ainda sonha. Sonha em retomar os bons tempos: “Talvez, um dia, eu pare isso aqui e só faça compor. Vou gravar umas 20 músicas minhas e quero voltar à boemia, viajar pra São Paulo, para Rio. Porque eu sou artista”.