Para marcar a participação de pernambucanos na Guerra do Paraguai (1864-1870), uma iniciativa popular, no Recife, propôs a construção de um monumento alusivo ao fato. A ideia foi criar e instalar uma fonte comemorativa, que exaltasse o fim do guerra e celebrasse a vitória do Brasil. ?

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O lugar escolhido para receber o equipamento foi a Praça Conde D’Eu, atual Praça Maciel Pinheiro, no Centro do Recife. Então, o antigo Chafariz Imperial foi demolido para que o novo projeto fosse erguido. Era 13 de março de 1875 e a montagem da última etapa do novo monumento chegava ao fim.

Depois de tanto aguardar, a população se reuniu em festa na noite de 31 de março daquele ano para inaugurar a fonte que, até hoje, é destaque na praça do centro da cidade.

(Foto: Manuel Borges)

Os leões, as ninfas, as máscaras e a guerreira nativa

Considerada uma das obras de artes mais importantes do português Antônio Moreira Ratto, a fonte da Praça Maciel Pinheiro foi toda construída em pedra lavrada. Ao longo de suas três bacias, elementos ilustram a grandiosidade da peça e chamam atenção por sua imponência.

Do alto dos quase 8 metros do conjunto, uma índia olha para a Igreja Matriz da Boa Vista segurando um arco e flecha. Ela representa e exalta os nativos brasileiros – muitos deles morreram lutando durante a Guerra do Paraguai.

Logo abaixo, três máscaras esculpidas na pedra cospem a água que percorre as bacias até a fonte. Elas se encontram acima das quatro ninfas que, segundo a mitologia grega, representam a fertilidade.

(Foto: Manuel Borges)

Na base, os quatro leões parecem suportar o peso de toda a estrutura. Mirando para o Norte, Sul, Leste e Oeste, cada um deles está virado para determinado ponto cardeal.

De acordo com um jornal pernambucano da época, o valor gasto para a construção da fonte foi de 10 contos de réis. Utilizando a metodologia do historiador e pesquisador Laurentino Gomes, em seu livro 1808, é possível converter aproximadamente o valor gasto para a moeda atual: cerca de R$ 1.230.000,00. ?

De Clarice, dos pombos, de todo mundo

A Praça Maciel Pinheiro, escolhida para abrigar a fonte, é uma das mais conhecidas do Recife. Ponto de ligação entre importantes vias do centro, as Rua do Hospício, do Aragão, da Imperatriz e Avenida Manoel Borba convergem exatamente nela.

Frequentada atualmente por passantes, moradores do bairro, comerciantes e população em situação de rua, a Maciel Pinheiro teve uma ilustre vizinha durante anos. É que a escritora Clarice Lispector morou nos arredores da praça, em um casarão na esquina com a Travessa do Veras, durante sua infância.

Em meio aos pombos e jardins, uma estátua de Clarice também povoa a praça, tendo a fonte monumental ao lado e sua antiga casa ao fundo.

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(Foto: Manuel Borges)

Apesar de ser alvo constante de depredação, a obra passou por restauro em 2016, após um longo período de abandono. Mesmo assim, ainda é possível ver pessoas que se instalam ao lado da obra e chegam a utilizá-la como banheiro.

Prestes a completar 143 anos no próximo sábado (31), a fonte divide a praça com pessoas que desconhecem sua origem, mas entendem que preservá-la é manter vivo um capítulo da história de cada um.

(Foto: Manuel Borges)