Numa cidade entrecortada por rios, de crescimento desordenado, de caos urbano que beira o colapso, as formas geométricas habitam e coexistem com os humanos que diariamente fazem ferver este caldeirão chamado Recife.

O traçado da cidade, sua arquitetura, até mesmo seus desvios (sejam estéticos ou éticos) fazem parte da alma dessa pequena metrópole, edificada – tal qual a natureza humana que a ergueu – em suas contradições.

Lugares onde os aspectos geométricos se fazem cotidianamente presentes – mesmo que mal vistos a olhos nus e apressados do dia a dia – e o valor histórico e afetivo de alguns outros estão presentes na revista A Geometria da Cidade, que será lançada nesta sexta (23), às 19h30, no Espaço Pasárgada, bairro da Boa Vista.

Com incentivo do Funcultura, a publicação de 70 páginas nos mostra monumentos, edificações históricas e paisagens da cidade sob outra perspectiva. São fotografias e poesia dialogando sobre um Recife que pouco se nota, mas que nos atravessa por tantas e tantas vezes. O registro fotográfico é o olhar de Linda Nogueira. Os poemas ácidos que dizem esse Recife são de Fred Caju.

A inspiração para fazer a revista surgiu de uma viagem feita por Linda à Europa, em 2015. Na cidade de Paris, aspectos geométricos das edificações lhe chamaram a atenção. Mesma impressão lhe causou algumas observações sobre a arquitetura do Recife. Resolveu, então, fazer o registro fotográfico disso.

A fotografia de Linda Nogueira (esq) e a poesia de Fred Caju (dir) nos mostram um Recife sob outra perspectiva (Foto: André Soares/PorAqui)

Casa da Cultura (antiga Casa de Detenção do Recife), Museu do Trem, Estádio do Arruda, Ponte de Ferro, Rua da Roda, Edifício Holliday são alguns dos lugares fotografados para a revista. “Muitos lugares foram escolhidos por uma relação afetiva minha. Outros, por serem, realmente, emblemáticos para a cidade. Caju também sugeriu outros, como a Rua da Roda, por exemplo”, conta Linda.

Edifício Holliday está na revista (Foto: Linda Nogueira)

A Geometria da Cidade contou também com a pesquisa Cêlini Albuquerque, que fez um levantamento do ponto de vista histórico e arquitetônico de vários lugares da cidade, o que acabou revelando muito do que há por trás e que fundamenta grande parte desse Recife que é mostrado na revista.

“A estética geométrica está presente em muitos desses lugares. Em outros, foi mais desafiante achar, mas fiz alguns recortes fotográficos que acredito que deram certo no sentido de capturar isso”, revela a fotógrafa.

(Foto: Linda Nogueira)

O que há de belo no recorte imagético que Linda mostra nas fotografias, há de ácido na crueza crítica dos poemas de Fred Caju. Uma escolha política e questionadora, digamos. “Quando eu comecei a perceber alguns desses lugares, entendi que todas essas edificações, toda essa geometria que há nessa cidade foi feita pelas elites e para as elites”, revela.

“Então, eu, negro, que sempre tive a voz interditada, vi essa oportunidade de poder falar algo, absorvi essa atmosfera política e resolvi não fazer um elogio à cidade”, continua Caju.

Lançamento da revista A Geometria da Cidade
Sexta (23), às 19h30
Espaço Pasárgada | Rua da União, 263 – Boa Vista
Aberto ao público