Hoje é 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. E, amanhã, dia 21? A causa negra continuará em pauta? Ou “voltaremos à nossa programação normal”, de opressão e racismo cotidiano?

O canto e a fala do negro brasileiro é uma arma de luta diária, a consciência também deve sê-la. Por isso, a cantora Isaar apresenta o show “Falando e cantando coisa de preto” nesta terça (21), às 20h, no Altar Cozinha Ancestral, em Santo Amaro, Centro do Recife.

Isaar fará um show num formato compacto, acompanhada dos músicos Gabriel Melo (guitarra semiacústica), Júnio DoJarro (percussão) e Deco (trombone). Além disso, contará com as participações de Zé Brown e Cannibal.

No repertório, um apanhado de seus três álbuns solo: Azul Claro (2006), Copo de Espuma (2009) e Todo Calor (2014).

O couvert artístico custará R$ 20

Um passeio com Isaar em Jardim São Paulo, onde ela nasceu e cresceu

Coisa de preto

Apesar de fazer um show baseado em seus discos, a voz negra e arrebatadora de Isaar não deixa de carregar – em seus genes e em sua consciência – a importância desse momento social e político para refletir sobre o que o negro ainda tem a dizer.

“Tudo já foi falado, mas não se ouve ainda. A gente está preso num sistema que massacra uma classe, que precisa dessa classe massacrada, para se manter. As pessoas sabem o que acontece”, considera Isaar. “É difícil transpor essa barreira, vivemos um momento de discussão na sociedade, mas não teve ainda uma mudança drástica”, acrescenta.

Para ela, o caso de racismo do jornalista William Waack, da Rede Globo, foi oportuno. “Acabou sendo um presente pra gente pode se dar conta de que quando a gente fala em racismo, não é vitimização, não é ‘coitadismo’. É algo real, concreto, que continua existindo até hoje”.

Dona Carmen Virgínia, a chef do Altar, corrobora da opinião da cantora. “Os negros continuam morrendo nas comunidades, as mulheres ainda sofrem, ainda há aquela coisa de ‘eu vi um sujeito mal encarado’. Se fosse um branco, de olho azul, seria um sujeito mal encarado? Num baculejo, quem apanha primeiro?”, questiona.

Carmen Virgínia recebe a cantora Isaar em seu Altar (Foto: Reprodução/Facebook)

Por isso, a importância da música e do canto de Isaar. “A âncora da representação do negro no Brasil é, totalmente, a cultura, a música. O brasil é negro – na sua população, na música, no futebol –, mas, ainda assim, quando um negro se destaca, é vítima de estigmas”, diz a cantora.

“Mas vai ser muito massa esse momento no Altar, onde a gente vai poder ouvir música de preto, comer comida de preto, e fazer uma noite com gente querida, num lugar especial”, diz Isaar.

“Para mim, Isaar é uma estrela! E é através da música que, com certeza, ela chega mais perto, ela fala mais, ela dá o seu recado. Com a música, ela chega mais perto do qualquer outra voz”, diz Carmen Virgínia.

Ao fim da conversa com a reportagem do PorAqui, a chef lembrou uma passagem da vida de Bob Marley. Dois dias após ser baleado por policiais dentro de sua casa, Marley não se deixou abater e realizou um show. Questionando sobre o porquê da sua resistência, ele respondeu: “O homem mal não descansa um dia. Por isso, eu também não posso descansar”.

Isaar no Altar – Falando e Cantando Coisa de Preto
Terça (21), à 20h
Altar Cozinha Ancestral | Rua Frei Cassimiro, 449 – Santo Amaro
Couvert artístico: R$ 20