Recife é uma cidade e tanto… ou melhor, é um conjunto de ilhas e tanto. Conjunto de ilhas? Já perceberam que se separarem as pontes, observaremos as várias ilhas formando nossa cidade? Pois bem… este conjunto de ilhas evoluiu muito ao longo dos anos, ganhou novas cores, teve o seu bairro primeiro (o Antigo) revitalizado, em alguns pontos reinventado, vivificado.

Abandou grandes magazines e ganhou novos e glamorosos conglomerados de lojas; perdeu suas antigas lanchonetes para as redes de fast food e seus nomes complicados. Os parques de bairro e seus brinquedos acanhados deram lugar a espaços com mirabolantes atrações. Os cinemas e suas cabines de paquera foram substituídos por salas de exibição mais aconchegantes, embora menos populares.

Folclore e tradição no Carnaval de rua do Recife

Mas a Recife de eu menina tinha os seus encantos, suas delícias, suas diversões. As atuais gerações jamais irão saber o que é escorregar sentada num saco de estopa, no Tobogã da Rua da Aurora, e torcer para que o pano não saísse do lugar e o bumbum não ficasse todo ralado.

E como se esquecer da Feira do Comércio e da Indústria do Nordeste, a Fecin, o maior parque de diversões em linha reta da América Latina? Tratava-se de uma feira de exposições onde se davam grandes negociações, mas, para nós, os pequenos, era tal qual uma Disneylândia.

Gastronomia

Não há como não se lembrar do refrescante mate em Dunga Mate, do maltado de As Galerias (que ainda resiste e nos delicia), daquela saborosa coxinha de galinha e do milk shake dos sonhos da Karblen, do melhor sanduíche bauru do mundo de A Kintella, da pizza brotinho da Padaria Imperatriz (outra guerreira resistente aos séculos), dos sorvetes e guloseimas da Confeitaria Confiança, a nossa ‘Colombo’, quase ao final da Rua da Imperatriz Tereza Cristina.

Eu duvido que tenha existido (ou exista) um cachorro-quente mais gostoso do que aquele preparado em A Cascata e A Cascatinha…

Comércio

E como sobrevivíamos sem os shoppings? Ora… nós tínhamos a Mesbla e a Slopper, dois grandes magazines onde se comprava de tudo, desde roupas, acessórios, cama, mesa, banho, perfumaria, eletrodomésticos, eletroeletrônicos… aquele LP de Roberto, lançado a cada final de ano, o LP de Son Bateau, uma coletânea de sucessos nacionais e internacionais esperada a cada dezembro, aquela trilha sonora das novelas da época. Pensou em algo… pensou em Mesbla, lembrou-se de a Slopper.

E para bugigangas, como potes plásticos, utensílios domésticos em melhores preços? Nada como a Lobrás – a loja brasileira. Pensou em vinil, fita cassete? Aky Discos e sua grande concorrente, A Modinha. Grandes acervos musicais, com toca-discos disponíveis para apreciarmos as muitas faixas dos LPs e compactos a nossa escolha.

Para cada festa do ano, uma roupa nova, mas nada de comprar roupas prontas. Para tanto, se não fosse o talento de nossas mães, recorríamos à ‘estilista’ de corte e costura do bairro e nos servíamos das Casas José Araújo, onde quem mandava era o freguês, dos acessórios de Fortunato Russo, Casa das Rendas e Casas Lapa.

E se a chuva estragasse a exibição da roupa nova? Passávamos nas lojas Tebas e Leite Bastos, ué! Não havia melhor lugar para aquele guarda-chuva novo, aquela sobrinha automática mais estilosa.

Livro 7

Livro 7: ponte pro conhecimento de muitos estudantes da cidade (Foto: Reprodução Internet)

E como se esquecer do maior fomentador de estudantes do estado? Tarcício Pereira e a sua Livro 7. Mais do que uma livraria, era um centro de cultura.

Na Livro 7, haviam mesinhas de leituras, onde aquele estudante com poucos recursos para a aquisição de livros podia lê-los ali mesmo, sem custo. Muitos estudantes da época devem a Tarcísio parte de sua formação.

Era também um espaço para trocas de ideias, bate-papos culturais, um reduto de intelectuais e artistas marginais dispostos a semear seus saberes entre aqueles que por ali passavam. Hoje, dispomos de grandes livrarias, com acervos completos e até exclusivos, mas pouco acessíveis àqueles menos afortunados em suas condições sociomateriais.

O melhor maior do mundo

Recife (e todo o Estado) é cheio dos exageros, quase todos comprovados. Tudo em nós é grandioso, é maior e mais comentado. Até mesmo os boatos, afinal de contas se deu aqui o maior de todos, há 43 anos.

Era julho de 1975, quando se espalhou que a barragem de Tapacurá havia estourado. Era o anúncio de um tsunami que varreria do mapa a nossa cidade, dando origem a um caos generalizado. Mas há lugares no topo do País dos quais nos orgulhamos e podemos comprovar.

Pouca gente sabe, mas somos os maiores consumidores de Whisky, em que pese o nosso clima de calor o ano todo, e Pernambuco figura como o maior consumidor de queijo do reino no Brasil.

Podemos também dizer que temos o melhor São João do mundo, o melhor Carnaval e somos o povo mais orgulhoso de sua terra e sabedor de sua história. Há quem diga que o Recife é a capital do Nordeste e eu tu, não duvidaria.

Mesmo aderindo ao novo, usufruindo de suas benesses, seguimos sendo um povo saudosista, tal como o lirismo dos nossos blocos carnavalescos.

Mesmo que tenhamos perdido o título para a Avenida Teotônio (Tocantins), seguiremos explodindo o peito em dizer que temos a maior avenida em linha reta da América Latina, afinal a Caxangá segue sendo a mais longa avenida cuja extensão total se desenvolve numa linha reta.

Infelizmente, hoje, ela também ostenta o título de ser uma das mais volumosas em trânsito do País, por onde trafegam milhares de veículos por dia, incluindo seus Bus Rapid Transit (BRT), os trólebus do passado, aprimorados.

Sobre estes, preciso dizer que os mais jovens jamais saberão o que é ficar preso na porta, com uma perna dentro e outra fora, sentindo-se um saci, enquanto o “motô” dava partida, sem notar ter prendido um passageiro (no caso, eu), só liberando-o aos gritos de “abre a porta e solta a menina, motô!”. Ainda bem que este era um veículo que só perdia para os cágados em velocidade: não tive sequer arranhões.

A modernidade chegou, agregou vida a nossa cidade, ao nosso Estado, mas as coisas que ficaram no passado passeiam frequentemente em nossas lembranças, nos emocionam, nos provocam saudades. Assim será também com as atuais gerações, para quem um dia tudo acabará como numa Quarta-Feira de Cinzas, com a diferença de que esta retorna a cada ano, enquanto que todo o resto se vai e não tem volta, fica apenas na lembrança…