por Beatriz Fernanda e Roseane Gomes

Chegando no Mercado da Boa Vista, fica difícil escolher qual história deve ser contada primeiro. São tantas variedades de produtos e vendedores atenciosos que ficamos com aquela vontade de voltar mais vezes!

Localizado na Rua de Santa Cruz, no bairro da Boa Vista, zona central do Recife, o mercado possui 63 boxes, com as mais variadas mercadorias, como frutas, legumes, carnes e armarinhos.

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Quem passa pela frente pode estranhar a arquitetura do local, que mais se parece com um casarão, e é detalhada por arcos, nada parecida com a de um mercado público tradicional. Mas, basta entrar no ambiente para perceber o quanto é ele aconchegante, arborizado e colorido.

Alfredo Pimentel, 74 anos, frequenta o mercado há 20 anos (Foto: Roseane Gomes)

Dona Etiene, 46, trabalha no mercado há 34 anos, e, desde que chegou por lá, comercializa frutas e verduras. Ela conta que seus principais clientes são os moradores das redondezas.

Etiene fala também a respeito dos preços de suas mercadorias, que oscilam muito. “Tem dia que a gente vai comprar a mercadoria por um preço e no outro dia tá custando o dobro. Por exemplo, hoje, o menino não trouxe limão, porque tava muito caro, mas amanhã já pode baixar, por isso não posso assegurar preço”, explica.

Desde nova, Etiene trabalha no Mercado da Boa Vista (Foto: Roseane Gomes)

Na bodega de Seu Edmilson, tem de tudo um pouco. Ele tem 62 anos e é comerciante há 38. Ainda lembra como era o mercado assim que chegou por lá. “Esse local era como um supermercado: vendia apenas arroz, feijão, farinha, charque. Não tinha nenhuma estrutura, esse pátio servia como estacionamento”, conta.

“Mas, com a chegada de grandes redes de supermercado, o movimento da gente caiu muito. Então, começamos a sugerir outras coisas, como música ao vivo nos finais de semana, aquela cervejinha gelada e mais comidas regionais”, continua.

Porém, mesmo que os finais de semana tenham boa quantidade de visitantes, Seu Edmilson conta que o restante da semana não tem sido muito movimentado.

Edmilson foi um dos poucos que acompanhou o crescimento do mercado (Foto: Roseane Gomes)

Tradição

O Mercado da Boa Vista possui um forte passado histórico, que é lembrado por muitos comerciantes até os dias de hoje. Já foi lugar de estrebaria e cemitério da capela, que hoje é a Igreja de Santa Cruz. Além disso, os boxes que atualmente vendem as mercadoria já funcionaram como locais de venda e exposição dos escravos africanos exportados ao Brasil por contrabando.

Célio Batista tem 50 anos e frequenta o local desde os 10. O estabelecimento era de seus avós e foi repassado como herança de família. Ele relembra um pouco a história: “Depois que acabou a escravidão, para não perder a área, a Prefeitura fez um mercado público e deu o nome de Mercado da Santa Cruz por causa da Igreja e do time, que foi fundado aqui na frente”.

Seu Célio também fala sobre o incêndio que ocorreu na área. “No finalzinho de 2005, eu perdi tudo, o meu comércio foi todo embora”.

Célio comercializa principalmente produtos regionais e artesanais (Foto: Roseane Gomes)

O comerciante ainda enfatiza a falta de atenção que o mercado sofre diariamente. “O tempo que eu tô aqui, nunca vi uma reforma. Depois dos incêndios de 2005 e 2008, o prefeito João Paulo disse que ia fazer a reforma do mercado, mas só fizeram um paliativo. Disseram que iam trocar todo o telhado, reparar a instalação elétrica e melhorar o saneamento do local, mas não tocaram em nada”, denuncia.

Diversão

Além de histórico, o mercado também respira cultura. Lá, além de ser o destino de muita gente nos dias comuns, também é parada obrigatória no carnaval. Isso porque todo ano acontece o famoso Bacalhau do Mercado da Boa Vista, para ajudar a animar todas as quartas-feiras de cinzas da folia pernambucana. O bloco foi criado em 2004, com o propósito de fazer a alegria dos foliões que não tiveram a oportunidade de aproveitar os outros dias de festa.

Mas acredite, a alegria no Mercado da Boa Vista permanece mesmo depois do Carnaval. As apresentações com música ao vivo fazem parte da programação local e são boas pedidas para quem quer reunir os amigos e aproveitar um bom fim de semana. A diversidade musical é grande: vai do rock à MPB.

Um sábado para curtir no Mercado da Boa Vista

Sirleide Silva é moradora de Caruaru, mas é frequentadora assídua do local. “A gente não vê bagunça, isso que me atrai pra cá. Gosto especialmente dos sábados, por causa do samba”. E conta suas experiências: “Vivi muita coisa e acabei aprendendo, porque também trabalho em mercado, aí a gente acaba colhendo cada coisinha que vê aqui e levando pra lá”.

Seu Lenilson, o famoso Lelêu, é comerciante há 50 anos no local e conta que sua barraca preza pelo MPB. “Foi ideia minha colocar essa música ao vivo aqui pra atrair mais gente, já tem uns cinco anos”, diz. “Eu não sou muito chegado em pagode, mas aqui toca tudo, Chico (o cantor) parece que tem um pendrive na cabeça, ele toca Fagner, Legião Urbana, Capital Inicial e até música em inglês. O repertório dele é massa”.

O recanto do Lelêu foi um dos primeiros a introduzir música ao vivo no mercado (Foto: Roseane Gomes)

E aí? Gostou das variedades que o Mercado da Boa Vista pode te oferecer? Então não perde tempo e aproveita esse pedacinho tão especial do do Recife!

Se ligas nas informações:

Mercado da Boa Vista
Rua de Santa Cruz, s/n -Boa Vista
Segunda a sábado, das 6h às 18h
Domingo, das  6h às 15h

 

Contar histórias dos bairros do Recife, sobre suas tradições e, às vezes, até sobre aquilo que ninguém vê. Foi pensando nisso que alunos do 6º e 7º período de Jornalismo da FBV criaram o projeto Pelas Ruas, que você pode acompanhar PorAqui.