O ano de 2017 marcou de forma importante a trajetória do maestro Nenéu Liberalquino junto à Banda Sinfônica do Recife – BSR. Há 15 anos, ele assumia a regência e direção artística do grupo, imprimindo uma marca muito própria de renovação e ecletismo, conquistando um público fiel cada vez maior.

Era julho de 2002 quando Nenéu realizava seu primeiro concerto à frente da BSR. Foi naquele ano que aceitou, sem titubear, o convite para o novo desafio. “Senti que era a hora de realizar esse sonho que eu tinha”, diz. O sonho era ser maestro.

“Eu tive um pequeno contato com a música erudita ainda na adolescência, ouvindo em disco. E me lembro que quando eu ouvia já imaginava, um dia, ser um regente”, conta Manuel Deodoro Liberalquino, 56 anos, natural de Canhotinho, Agreste de Pernambuco.

Sob a sua batuta, a BSR fez jus a uma de suas principais características: a versatilidade. Há espaço para tudo, da música erudita à popular. Lembrando que música popular abrange muita coisa: “Dentro dela, está, praticamente, a música do mundo todo: jazz, MPB, música pernambucana, trilhas sonoras”.

(Foto: Danilo Galvão)

Isso permitiu uma renovação constante do repertório. De 2002 até agora, a BSR já executou mais de 400 peças, informa Nenéu. “Nunca repetimos nenhuma música nos concertos de um mesmo ano”, garante.

A única exceção, diz Nenéu, são as trilhas sonoras de cinema, que ganham um concerto exclusivo, inteiramente dedicado a elas, sempre no mês de novembro. E são elas que vêm conquistando um público, até então, alheio a esse tipo de espetáculo: os jovens.

“O jovem pode até não conhecer uma sinfonia de Beethoven, mas, certamente, ele conhecerá a trilha de Game of Thrones, de Star Wars, de Batman, e tantas outras”.

(Foto: Danilo Galvão)

A aposta vem dando certo. “Hoje, vejo muitos jovens vindo aos concertos. Eu fico super feliz porque é uma oportunidade única que eles têm de ver uma banda sinfônica tocando um repertório de qualidade, seja de música erudita ou popular”.

Dedicação e cumplicidade

Para deixar tudo redondinho a cada concerto, Nenéu e os músicos têm uma rotina puxada, de extrema dedicação ao trabalho a ser apresentado mensalmente.

Ao longo de duas a três semanas, são realizados ensaios diários para construir e dominar o repertório. “A gente faz esses ensaios no Mamam. Quando faltam cinco dias para o concerto, passamos a ensaiar no Santa Isabel”, explica Nenéu.

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Além de disciplina e dedicação, é preciso cumplicidade e confiança na relação entre ele e os 70 músicos. “Se não tiver um diálogo, se não houver uma cumplicidade, certamente o trabalho não dará certo”, fala. “Isso é algo que se conquista com o tempo, no dia a dia. Sou um regente muito feliz de ter estabelecido isso com eles”, completa Nenéu.

Trajetória

A relação de Nenéu com a música vem de longa data. Apesar de ser difícil resumi-la, podemos demarcá-la em alguns momentos: aos 7 anos, estimulado pelo pai, ele já frequentava programas de rádio e televisão, cantando. Conquistou, nessa idade, o I Concurso de Cantores Infantis do Nordeste.

Aos 16 anos, queria ir além: ser instrumentista. O violão foi sua escolha. A música popular brasileira, sua principal escola. Autodidata, superou dificuldades físicas e desenvolveu uma técnica própria de tocar violão.

Curiosamente, sua formação acadêmica não iniciou com a música. Nenéu formou-se em Letras, pela UFPE. Mas não renegou sua predestinação, que o fez rumar até São Paulo, onde passou a cantar e tocar na noite, além de fazer alguns cursos em música.

Em 1986, recebeu uma bolsa para estudar na Berklee College of Music, em Boston (EUA). Lá, consolidou sua formação em Composição e Regência.

De volta ao Brasil, em 1990, Nenéu investiu na sua carreira como violonista. Participou de diversos festivais e projetos país a fora e no exterior. Além disso, na condição de produtor e arranjador, imprimiu sua marca em trabalhos de outros artistas, e gravou três álbuns próprios: Nenéu Liberalquino (1994), Aquarela do Brasil (1996) e Acqualuz (2002).

Este último lançado no ano em que assumiu a regência e direção artística da Banda Sinfônica do Recife.

Encerrando 2017

Nesta quarta (20), acontece o último concerto de 2017 da Banda Sinfônica do Recife. Será às 20h, no Teatro de Santa Isabel, no bairro de Santo Antônio. A entrada é gratuita, com a retirada dos ingressos uma hora antes do espetáculo, na bilheteria.

No repertório, obras do maestro e compositor russo, Nikolai Rimsky-Korsakov; do compositor estadunidense Frank Ticheli; além de músicas de Guinga e Aldir Blance, Ivan Linse, entre outros.

Último concerto de 2017 da Banda Sinfônica do Recife
Quarta (20), às 20h
Teatro de Santra Isabel | Praça da República, s/n – Santo Antônio
Entrada gratuita (com retirada dos ingressos a partir das 19h)