Sabe o que aquelas matrioskas da Rússia e as carrancas de Petrolina têm em comum? Isso mesmo. São souvenir.

Palavra francesa que significa “memória”, em bom e velho português souvenir é aquela lembrancinha característica que compramos em determinados lugares quando viajamos.

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Quem circula pelo Centro do Recife certamente deve ter observado ou até duvidado de um tipo de souvenir que, embora possa ser encontrado em outros poucos locais, aguça a curiosidade e caracteriza o tipo de artesanato comercializado na Conde da Boa Vista.

É o nome gravado no arroz. Um trabalho feito por artesões que utilizam uma forma minuciosa de escrever e desenhar artisticamente sobre o grão.

Foto: Reprodução

O arroz era o símbolo da fartura na China antiga e ,não por acaso, é atirado até hoje sobre os recém-casados. Em diversas culturas, o grão, além de ser cultivado para a alimentação, representa os desejos e votos de prosperidade.

Para artesãos do Recife, o arroz como arte contribui com o sustento da casa e o sucesso do trabalho, fazendo com que o adereço seja um dos mais procurados em feiras, exposições e nas calçadas do Centro.

Uma técnica sobre segredo

De origem oriental, a técnica de escrever no grão de arroz é desenvolvida há muito tempo. No Recife, no entanto, ela atrai os olhares desconfiados da população.

Nomes próprios e desenhos são gravados no arroz que, após receber o tratamento adequado com produtos para a conservação, são colocados em pequenos vidros, transformando-se em pingentes.

Todo artesanato é um item exclusivo e, partindo desse pensamento, os artesãos que fabricam o acessório com arroz não pretendem ensinar o método nem esperam que a produção se popularize. Um dos profissionais que trabalham com a arte no Recife é o artesão Alex de Farias, de 28 anos.

Foto: Reprodução

“Aprendi a técnica com meu pai, que por sua vez aprendeu com um chinês. Trabalho com essa arte há 7 anos e preferimos não difundir o conhecimento para que se mantenha valorizada e preservada”, diz ele ao canal Coração da Cidade.

Foto: Reprodução

Alex expõe seus trabalhos em shoppings, pontos turísticos, na Feira do Bom Jesus, no Recife Antigo e através do perfil Mestre do Arroz, no Instagram, onde recebe encomendas.

“Todo mundo aprecia esse trabalho pela minuciosidade e originalidade, pois cada pingente é único”, completa.

Na Conde da Boa Vista, mesmo quando não se vende bem, ainda se vende muito

E foi de forma autônoma que Valdeir dos Santos, 35, aprendeu a escrever sobre o grão de arroz.

“Ninguém nunca me ensinou. Aprendi metendo a cara e pesquisando. Procurei saber onde vendiam os materiais e pronto. No começo demorei a acertar a técnica, mas continuei insistindo até conseguir”, diz ele.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

Conhecido por Val, um dos hippies da Conde da Boa Vista, o artista optou por expor seu trabalho nas calçadas do Centro após perceber que o fluxo de pessoas traria mais lucro para o negócio.

“Quando eu vim para o Recife, vi que aqui era o melhor lugar para demonstrar meu trabalho. Passa muita gente, é muito rotativo”, explica.

Natural de Maceió, Val trabalha com artesanato há quase uma década. Foi após a falência de um antigo hotel em que era funcionário que ele seguiu em frente e mudou para a Capital Pernambucana.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

“Vi que aqui eu poderia vender mais do que em Maceió. Na Boa Vista, no dia que eu vender ruim ainda vendo muito. Tem dia que tiro R$ 50, mas tem dia que vendo R$ 200”, revela.

Da desconfiança ao deslumbre

A placa no chão chama atenção de quem passa, mas também gera desconfiança sobre a possibilidade real de alguém escrever sobre um grão de arroz, que pode medir 5 milímetros.

“Tem gente que acha que é mentira, daí eu não discuto. Apenas faço o trabalho e todo mundo fica espantado com o resultado”, diz Val.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

Para alcançar o resultado, é preciso muita concentração e habilidade. Durante o processo é possível observar a leveza e a rapidez com que a caneta utilizada toca a superfície mínima do arroz, transformando o simples grão em obra de arte.

“As pessoas têm preconceitos com os hippies aqui da Conde, acham que vivemos bêbados e tal. Pelo menos eu não sou assim. Tenho que me manter concentrado, com a coordenação motora firme para conseguir fazer o trabalho”, desabafa Val.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

Já para Alex, essa desconfiança inicial é totalmente natural. “Não é todo mundo que conhece, então muitos ficam bem impressionados quando veem pela primeira vez, mas sempre é muito legal e satisfatório poder fazer um trabalho que é admirado”.

Foto: Manuel Borges/Colaboração

A tradição milenar chinesa transformada em souvenir é o ponto alto do catálogo desses artistas. Mais do que lucro, o resultado dessa habilidade é sempre o reconhecimento e admiração tanto para os que expõem seu trabalho em feiras e eventos quanto para os que fazem das calçadas da Boa Vista o seu mostruário particular.

Por Manuel Borges
Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.

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