“Recife é um caos encantador tropical”, diz, entre um cigarro e um café, a atriz Diana Giraldo, 31 anos, na varanda do apartamento onde mora, no bairro da Boa Vista. Há dois anos e meio, a colombiana de Bogotá veio morar na capital pernambucana. Durante esse tempo, aprendeu a observar tanto as belezas quanto os defeitos do Recife de modo apaixonado, afetivo.

“É massa!”, “Bonito que só!”, “os pirraia” já são algumas expressões que ela fala naturalmente enquanto conversa, mostrando a intimidade que têm com o lugar que habita.

Formada em Cinema e em Artes Cênicas, Diana trabalha compartilhando seu conhecimento: é professora de Teatro e de Interpretação para Cinema e Televisão, na Hipérion – Escola de Artes, na Encruzilhada, Zona Norte do Recife.

(Foto: Arquivo pessoal)

Além disso, se juntou a dois “amigos-irmãos” para tocar o Ateliê Casa de Atores, onde realiza workshops e oficinas, e trabalha na formação de novos artistas. Eles têm na criação a base de sua relação com a arte. “Estamos também escrevendo roteiro para cinema, escrevendo peças”.

Aqui, Diana já realizou performances envolvendo experimentações cênicas abertas a interações multimídias e com outras linguagens, um campo que lhe interessa como artista. No cinema, o trabalho mais recente foi o curta A Cerca do Nada, de Wellington Bravo, exibido na última edição do FestCine.

(Foto: Reprodução)

Até chegar aqui

Antes de vir ao Recife, Diana já havia morado no Chile e em Porto Alegre (RS). No audiovisual, participou da realização de vários curtas e longas. Como atriz, protagonizou algumas outras produções, peças de teatro, filmes e web séries. O último trabalho realizado na Colômbia foi o longa Una Mujer.

Ela desejava continuar sua trajetória, mas respirando novos ares. Recife foi sugestão da amiga com quem dividia morada, em Bogotá. “Ela disse: ‘Vai pra Recife, que é tua cara, tem um movimento de cinema muito grande’. Então, com o dinheiro que ganhei com Una Mujer, comprei a passagem e vim”.

Quando chegou, Diana tinha apenas a reserva de dois dias num hostel em Boa Viagem. “Não conhecia absolutamente ninguém. Eu estava apenas com uma mochila e o dinheiro. Tinha que me virar”.

Diana pegou logo o jeito brasileiro de ser e se “virou nos 30” de fato. Trabalhou no hostel, discotecou em bares da cidade, como o Texas. Nesse tempo, morou no Alto Santa Terezinha e na Encruzilhada, ambos na Zona Norte, até chegar ao centro da cidade.

Morando no centro

“Eu queria morar perto do mar, mas acabei descobrindo um outro universo quando vim morar no centro. Aqui é mais minha vibe!”, revela Diana.

Primeiro, viveu durante seis meses numa comunidade em Santo Amaro. O que a levou até lá? “Queria morar numa casa para levar meu cachorro Jacobo”, conta. Mas, além disso, ela acabou transformando sua casa numa espécie de espaço cultural, com workshops, oficinas, performances, peças, etc.

“Eu queria estar num lugar onde eu pudesse compartilhar o que sei, dar aulas, onde eu pudesse colocar em prática minhas pesquisas e chamar as pessoas para contribuir”. O espaço foi onde nasceu o Ateliê Casa de Atores.

(Foto: Arquivo pessoal)

A experiência humana valeu a pena. “Era incrível, como se fosse outro mundo: todo mundo nas ruas, todo mundo amigo. Tinha essa coisa popular, da festa na rua, do churrasco na rua, da música”, lembra. “Eu gosto de conhecer pessoas assim, de cumprimentar ‘a mulher da barraca’, ‘o cara do posto’”.

Atualmente morando no bairro da Boa Vista, Diana mantém muito do encantamento humano que Recife lhe desperta, em hábitos simples. Andar de bicicleta é um deles. Principalmente nas pontes da cidade. “É algo que me revigora. Posso estar chateada, num dia ruim, quando passo pelas pontes amo Recife de novo, passa tudo”, se derrete a colombiana.

Outro lugar que lhe toca é o Marco Zero. “Tenho lembrança de momentos específicos e que me deram uma paz, como ver o amanhecer ali. Me traz essa magia da cidade”.

Realidade

“Meu sonho era ser prefeita do Recife, pra fazer algo pela cidade. Como pode um lugar tão lindo e tão descuidado?”, chama a atenção Diana, que, mesmo sendo apaixonada por Recife, também observa os problemas da cidade, mas com um olhar de zelo e cuidado pelo lugar onde mora.

“Recife tem problemas urbanísticos sérios: de lixo, mobilidade, educação cidadã. E nós, como recifenses, como habitantes da cidade, temos responsabilidade, temos de fazer algo”, diz. “Algumas pessoas daqui me perguntam, espantadas: ‘Por que você veio justamente pro Recife?’. E eu vejo que essas pessoas não enxergam a cidade que têm, o potencial dela”.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Mas, volta e meia de conversa, o encantamento desabrocha de novo. “Tem esse caos, mas o tipo de vida das pessoas daqui, o vento, o sol, isso gera outra forma de se relacionar entre as pessoas, faz com que elas sejam mais abertas”, fala.

“Mesmo eu sendo estrangeira, sinto que esta é a minha cidade, porque eu habito aqui, eu estou construindo uma vida aqui, tenho uma história. São mais de dois anos fora de casa, longe da família, dos amigos, que parecem quatro”, diz a colombiana.

“Tem sido uma vivência intensa, de entender o ritmo da cidade, se adaptar, isso faz com que você cresça muito como pessoa”.