Uma obra no Bairro do Recife está soterrando parte da história da cidade, relegando ao esquecimento o caminho feito por milhares de pessoas diariamente, quando a região era o berço central e comercial da capital pernambucana.

No valor de R$ 4,5 milhões, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a obra que transforma a Av. Rio Branco num boulevard, tocada pela Secretaria de Turismo e Lazer de Pernambuco (Setur-PE), além dos atrasos pelos quais passou, está escondendo um patrimônio afetivo e histórico do Recife: os trilhos dos bondes que circulavam na região.

O assunto já havia sido tratado pelo jornalista Jota Nogueira, em seu blog Antes que Suma. “Eu acho uma perda enorme para a cidade que a história do Recife, construída também sobre os trilhos dos bondes, seja encoberta. É contraditório, por sinal, uma obra feita por uma secretaria de turismo não valorizar isso justamente como um atrativo turístico, de se contar a quem vem de fora que parte da história do Recife passou por ali”.

A Setur-PE, por outro lado, argumenta que o projeto prevê a restauração das calçadas, mantendo a característica original dos desenhos de pedra mineira, o embutimento da fiação elétrica e a transformação do passeio público em um espaço destinado à circulação de pedestres e modais não motorizados. Toda a avenida, elevada à altura da calçada, se estende até o Marco Zero.

No início das obras, com a retirada do asfalto da avenida, os trilhos vieram à tona novamente. Ali já era um cemitério da história da cidade. Seria o momento adequado para resgatá-los. No entanto, foram novamente encobertos por granito. Mais uma vez, escondidos.

(Foto: Blog Antes que Suma)

Questionada sobre o assunto, a Setur-PE disse, em nota, que “os trilhos foram devidamente catalogados pelo IPHAN antes de serem cobertos pelo novo pavimento da Rio Branco. Os pontos dos trilhos foram devidamente demarcados por pedras com tamanhos diferentes, que fazem referência e sinalizam a existência delas”.

O PorAqui circulou algumas vezes pelo local e, infelizmente, constatou que essas “pedras com tamanhos diferentes” não denotam qualquer tipo de referência à existência de trilhos abaixo delas. Visualmente, não é possível identificar ou, até mesmo, intuir que debaixo dessas pedras existam trilhos de bonde.

Após alguns adiamentos, a Setur-PE garantiu que a obra será entregue neste próximo mês de dezembro. “A alteração no cronograma (o último previa a entrega em novembro) foi necessária diante das obras de drenagem e implantação da travessia de acesso ao Marco Zero”.

Polêmica

O boulevard da Rio Branco, até então, é uma obra que intriga. Ainda não sinaliza, com clareza, a que veio. Alguns bancos já estão instalados no lugar, mas a sobreposição de terra e pedras portuguesas e a não ativação dos postes ainda deixa dúvidas sobre qual será a dinâmica desse lugar quando entregue à população. Ainda há um imenso vazio: do nada ao nada.

Além disso, ainda falta a instalação completa de mobiliário urbano, previsto no projeto. Além dos bancos de madeira, serão instalados quiosques, que, segundo a Setur-PE, “serão estruturados em metal remetendo à ideia de container, em referência à atividade portuária característica do bairro. Os quiosques ainda servirão de suporte para a exposição de fotos antigas da avenida desde sua abertura até os dias atuais”. Isso ainda não chegou por lá.

Segundo o secretário de Turismo de Pernambuco, Felipe Carreras, em publicação no site oficial da Setur-PE, em junho deste ano, a ideia é transformar a antiga avenida num espaço de convivência e circulação de pessoas.

“A transformação da avenida em um espaço exclusivo para os pedestres é fundamental para o resgate da cultura de rua”, pontua. “A movimentação do público vai garantir o fortalecimento do comércio local e, sem dúvida, contribuir com a conscientização da população sobre a preservação de espaços públicos históricos”, defendeu na época da declaração.

Desperdício

Opinião contrária à do urbanista César Barros, que critica totalmente a intervenção. “Considero esse boulevard um grande desperdício. Primeiro porque descaracteriza por completo a vocação daquela área. As pessoas apenas cruzam a Rio Branco, não a usam. Por si só, ela não se sustenta e vai acabar virando mais um espaço turístico sustentado apenas por eventos”.

(Foto: Mariana Dantas/NE10)

“Se a função era ser um espaço de convivência entre as pessoas, ela peca por não interligar pontos que, realmente, promoveriam essa integração. Por exemplo, ligar com a Comunidade do Pilar, que é ali do lado”, pontua Barros. “Mas existe esse fetiche equivocado de se fechar a rua, o que mostra, mais uma vez, o caráter excludente e de gentrificação que há nesse projeto. É algo fake, não é natural, vai servir a poucas pessoas”, completa.

Sobre os trilhos dos bondes, Barros também critica. “Isso mexe com a questão da memória. A arquitetura pode servir para o bem ou para o mal. Tenha certeza que negar um elemento histórico, servir a essa falta de memória patrimonial, negar o passado, é uma abordagem da arquitetura para o mal”.

“Além do que tem muitas ruas no Bairro do Recife em que existem trilhos mantidos e não há qualquer problema, seja para circulação de pedestres ou de veículos”, destaca Barros.

|(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Já o professor Fernando Diniz, do curso de Arquitetuta e Urbanismo da UFPE, tem uma visão bem diferente e mais particular sobre a obra. “Tecnicamente, seria inviável deixar os trilhos à mostra. Nos anos 1940, eles não receberam pavimentação, ficou o pavimento antigo, era complicado, não tinha sensibilidade, não era confortável”.

E acrescenta: “Uma vez que eles já estavam cobertos antes, não vejo muita diferença em cobri-los agora. Existe toda uma questão de preservação desses trilhos e é importante que eles sejam registrados para que, no futuro, exista a possibilidade de serem vistos novamente”.