Mais uma reviravolta na Paixão de Cristo do Recife. Depois de 21 edições consecutivas, o espetáculo não será apresentado este ano. A causa: captação insuficiente de recursos e pouco tempo para os ajustes necessários para sua realização, alegam os produtores José Pimentel (também diretor do espetáculo), Paulo de Castro e Antônio Pires.

O orçamento mínimo para a Paixão de Cristo do Recife 2018 era de R$ 700 mil. Segundo Paulo de Castro, já havia garantidos R$ 400 mil (R$ 250 da Prefeitura do Recife e R$ 150 mil do Governo de Pernambuco). “Mas essa verba não é suficiente diante das demandas do espetáculo este ano. E, infelizmente, não conseguimos apoio da iniciativa privada”, explicou Paulo.

De acordo com a produção, parte do dinheiro seria destinado à reconstrução do cenário, utilizado durante 21 anos, mas destruído por cupins; para gravar os áudios dos atores, diante de mudanças significativas no elenco; e para a confecção de novos figurinos. Além disso, havia a intenção de ajustar as remunerações do elenco, incluindo figuração, e da equipe técnica, defasadas há alguns anos.

Após 40 anos sendo Jesus Cristo, este ano, José Pimentel estaria apenas na condição de diretor da Paixão (Foto: Rodrigo Ramos/Secult-PE)

“Todos os anos lutamos para fazer a Paixão de Cristo do Recife: passamos por muitas dificuldades e, mesmo assim, íamos em frente porque temos consciência da importância do espetáculo para a cidade do Recife e também para Pernambuco. Mas chegamos ao limite. Não dá para continuar, inclusive pela segurança do elenco e do próprio público. O cenário precisaria ser refeito”, lamentou José Pimentel.

A temporada 2018 estava marcada para os dias 30 e 31 de março e 1 de abril. Até então, a principal novidade deste ano seria a substituição de Pimentel do papel de Jesus Cristo, após 40 anos interpretando o personagem. O novo ator seria por Hemerson Moura, escolhido após uma seleção que contou com 27 candidatos inscritos.

Hemerson Moura seria o novo Cristo este ano (Foto: Divulgação)

Ele já havia começado a preparação para o espetáculo, sob a direção de Pimentel. “Estou ciente das dificuldades enfrentadas pela produção. De qualquer forma, foi muito bom ter a oportunidade de trabalhar e conviver com José Pimentel, um ícone do teatro pernambucano”, disse Hermeson.

HISTÓRICO – Quando foi criada, em 1997, a Paixão de Cristo do Recife era conhecida como “A Paixão de Todos”. Durante cinco anos, a encenação aconteceu no estádio do Arruda. Depois, entre 2002 e 2005, ocupou o Marco Zero, no Bairro do Recife. Em 2006, por conta de reformas no local, foi encenada em frente ao Forte do Brum e, desde 2007, retornou ao Marco Zero.

Um dos eventos mais importantes no calendário cultural e religioso da capital pernambucana, a Paixão de Cristo do Recife chegava a reunir mais de 30 mil pessoas a cada noite de temporada. Gratuito, o espetáculo possui números de superprodução: o elenco é composto por 100 atores e 300 figurantes.

Um dos diferenciais da montagem é que o público não precisa se deslocar para assistir ao espetáculo e, mesmo assim, a produção conta com nove cenários diferentes. Além disso, uma das premissas da encenação sempre foi a valorização do ator pernambucano e a consolidação do mercado de trabalho para os profissionais de artes cênicas.