Como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte

A primeira Ponte da Boa Vista, construída no local por ordens do príncipe Maurício de Nassau, em 1640, era feita de madeira e foi destinada à mais funcional das utilidades: atravessar o rio.

(Foto: Manuel Borges)

Como diz Lenine na canção, o objetivo era exatamente esse: permitir que as pessoas saíssem da Ilha de Santo Antônio e acessassem o Recife pelo Rio Capibaribe, e vice-versa. Depois de algumas reformas, o ferro batido, importado da Inglaterra, nos deu o formato da Ponte como conhecemos hoje.

Os que passam. Os que ficam. Os que filmam.

A ponte que encurta a distância entre dois lados da cidade é a mesma que desperta a apreensão de quem a atravessa à noite. Mas traz, também, esperança para aqueles que se encostam em suas grades à espera de reconhecimento e ajuda.

A Ponte de Ferro comumente é palco para artistas amadores que buscam divulgação e remuneração imediata de seu trabalho. Violeiros, poetas e cantores se misturam aos passantes, se tornando quase imperceptíveis diante do frenético ritmo dos passos de quem por lá caminha.

(Foto: Manuel Borges)

A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento

Com o passar do tempo, a Ponte de Ferro virou um xodó da cidade e abraça, com seus losangos, o trabalhador apressado, o vendedor passageiro, o desabrigado faminto, o artista inspirado.

O cineasta Eduardo Morotó, por exemplo, escolheu a ponte como uma das locações para o filme A Morte Habita à Noite, que se encontra em fase de pós-produção.

E como não citar o clipe do cantor brega Ademir Galeno, que traz a Ponte de Ferro como pano de fundo?

O vídeo é um registro icônico do período em que cada espaço da Ponte da Boa Vista era disputado entre pedestres e vendedores, antes de os ambulantes serem realocados para a Avenida Dantas Barreto pela Prefeitura do Recife, em 2013.

A Paris que não deu certo

O que era para ser mais um local no planeta destinado a fazer promessas e declarações de amor, acabou não funcionando muito bem. Como acontece na cidade de Paris, e em outras pelo mundo, onde casais selam a união trancando cadeados na ponte sobre o Rio Sena, o projeto de um estudante do curso de turismo, em 2012, tentou imprimir a onda dos cadeados do amor sobre o Rio Capibaribe.

Acontece que, por ser tombada como patrimônio histórico, a Prefeitura não liberou a continuidade do projeto dos cadeados na Ponte de Ferro, transferindo-o para a Rua da Aurora.

(Foto: Manuel Borges)

Mesmo assim, ainda é possível encontrar cadeados remanescentes de casais apaixonados que escolheram a Ponte da Boa Vista para testemunhar suas juras de amor.

A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento

 

Por Manuel Borges

Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.