Durante três fins de semana, o Apolo 235, lugar do incentivo ao empreendedorismo inovador do Porto Digital, receberá um grupo de profissionais que ainda luta por valorização num mercado majoritariamente masculino: o desenvolvimento de games.

O Portomídia Game Jam das Minas vai reunir ilustradoras, designers, artistas, produtoras de trilha sonora, programadoras e desenvolvedoras para que, juntas, criem novos jogos, troquem experiências e se fortaleçam. O evento é gratuito e as inscrições seguem abertas até a segunda-feira, dia 19.

Faça já a inscrição na Game Jam das Minas: seliga.ai/gamejamdasminas

Programação

Primeiro, no próximo dia 24, será realizado um workshop sobre a ferramenta Unity. No fim de semana seguinte, entre os dias 2 e 4 de março, as participantes, já separadas em equipes, terão 48h seguidas para criarem, do zero, novos games. O último encontro está marcado para o dia 10 de março, quando será realizado o recap, momento de troca de experiências e apresentação dos resultados. As inscrições são gratuitas e estão abertas até o dia 19 deste mês.

O workshop sobre a ferramenta Unity, que vai preparar as participantes para a game jam, será ministrado pela professora de programação e desenvolvimento de jogos Tatyane Calixto. “Vemos poucas mulheres na indústria de tecnologia e de jogos. O Unity é uma engine muito utilizada para o desenvolvimento de jogos digitais e é indispensável para o público esperado”, comenta.

Além de Calixto, todo o grupo de mentoras da Game Jam será feminino. A prioridade nas inscrições também é delas, mas os homens que quiserem participar também podem se inscrever, já que o objetivo principal é aprender e somar. Conhecimento prévio é importante, pois haverá um processo seletivo para a escolha dos participantes.

Para a coordenadora de qualificação em economia criativa do Porto Digital, Clara Vasconcelos, a Game Jam das Minas é uma ação de empoderamento estratégica para o parque tecnológico.

“O evento engaja as mulheres do setor e garante visibilidade para essas profissionais. Além disso, a jam também serve para desmistificar uma área cuja aptidão é vista como essencialmente masculina. Não temos só minas jogando, tem minas fazendo jogos e a Game Jam é uma oportunidade de fazer negócios e fortalecer as carreiras delas”.

Entrevista: as minas no universo gamer

Quer saber mais e entender melhor a respeito do cenário de desenvolvimento de games e de como o próprio universo gamer lida com questões de gênero? Confira abaixo a entrevista com a idealizadora e produtora do evento, Catarina Macena:

Como surgiu a ideia de criar a 1ª Game Jam das Minas? Você já participou de algum evento da área de games que tinha como prioridade atingir o sexo feminino?

Catarina M: Nunca participei de um evento de games cuja prioridade fosse o público feminino e a ideia veio justamente daí. Estou sempre nas game jams do Recife e, nas últimas, tentei montar uma equipe só de mulheres, mas nunca havia gente suficiente…

Por outro lado, eu sei que há mulheres na área por aqui, apesar de ser minoria. Será que a maioria masculina assusta? Que são tratadas de forma diferente? E se rolar uma Jam das Minas, elas vão aparecer? Com essas perguntas em mente, sondei algumas delas e percebi que o público existe e que tem interesse nesse tipo de evento.  Para ter ideia, no dia seguinte à divulgação das inscrições, já havia mais de 60 pessoas inscritas, sendo 70% mulheres.

Catarina Macena, organizadora da Game Jam das Minas

A ideia desde o início era ter as três etapas: ensinar como “fazer”, ter o momento de colocar a mão na massa e depois ver o que rolou de bom e ruim? O que você acha de organizar o evento dessa forma?

Na verdade, não. Eu cheguei no Porto Digital com uma proposta mais simples, visando somente a “mão na massa” mesmo. Clara Vasconcelos, responsável pelas qualificações em economia criativa, teve a sensibilidade de propor este formato mais completo, que já havia sido utilizado em jams anteriores.

Acho que é o formato ideal, porque oferece um treinamento para quem não tem muita experiência, além do momento posterior, onde os participantes podem fazer um balanço dos erros e acertos das suas equipes e ainda oferecer um feedback sobre o evento em si.

As mulheres ampliaram vantagem sobre os homens como o maior público de games no Brasil, segundo a pesquisa Game Brasil 2017. Qual a sua opinião sobre o resultado dessa pesquisa? No dia a dia é possível perceber isso?

Acredito que é possível perceber o aumento no dia a dia, sim. Mas é importante que haja pesquisas validando este tipo de informação e oferecendo dados para o mercado compreender o comportamento do público feminino. Falta agora parar de tratar a mulher somente como consumidora casual, já que a própria pesquisa indica que, apesar de não ser maioria, são uma boa parcela dos jogadores hardcore.

Rolou a campanha “MyGameMyName” [Em que atletas de e-sports sentiram na pele o preconceito contra mulheres ao entrarem nos jogos com nicknames femininos] no Brasil e no mundo. O que você acha que falta para situação ficar igual pra todo mundo?

O problema, infelizmente, não é somente da área dos jogos: o menosprezo e a violência contra a mulher são comuns dentro da nossa cultura, e isso reflete dentro de casa, na escola, no trabalho… Campanhas como a #MyGameMyName são importantes, fazem homens se colocarem na nossa pele, perceberem que tinham um comportamento sexista e violento.

Mas e quando nem algo tão explícito é capaz de conscientizar? Quando o cara continua achando normal tratar uma mulher assim? Enquanto não houver educação, o comportamento violento contra a mulher vai continuar sendo naturalizado e vamos continuar sendo menosprezadas, seja jogando ou trabalhando, dentro ou fora do Brasil.

O que você nota a respeito da imersão das mulheres nesse universo dos games (a galera que joga) e principalmente no mercado de trabalho (a galera que trabalha com)?

Ainda há muitos comportamentos sexistas, mas é um momento onde os espaços começam a ser ocupados com mais afinco e mais consciência. E iniciativas como a Portomídia Game Jam das Minas, com uma equipe de mentoria 100% formada por mulheres, têm um papel importante nesse momento, tanto por inspirar as que estão chegando quanto por mostrar a competência das que estão no mercado.

Portomídia Game Jam das Minas
Dia 24/02 (9h às 17h) – Workshop de Unity com Tatyane Calixto (30 pessoas)
De 2 a 4/03 (começando às 9h do dia 02 até às 17h do dia 4) – Portomídia Game Jam das Minas (50 pessoas)
Dia 10/03 (14h às 18h) – Recap
Inscrições até 19/02 pelo link seliga.ai/gamejamdasminas
Resultado das inscrições: 21/02