A pomposa Rua Nova, uma das vias mais importantes do Centro do Recife, sempre esteve à frente de seu tempo. Endereço de três cinemas ao logo do século passado, que projetaram das mais simplórias películas aos sucessos de bilheteria, com salas que viviam abarrotadas de gente. Nas telas, filmes importados, nacionais e reproduções do cotidiano recifense que só perdiam em originalidade para as tramas que envolviam a sociedade da época.

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Marcada por crimes verídicos e questionáveis, o fato é que nem o Pathé, o Royal e o Vitória, os antigos cinemas da Rua Nova, exibiram enredos tão surpreendentes quanto os ocorridos do lado de fora de suas salas de projeção.

Tiros na Confeitaria Glória mudam o roteiro do Brasil

Intimidades expostas, cafezinho interrompido à bala e um chofer justiceiro. Elementos perfeitos para o thriller protagonizado por um dos políticos mais influentes da época.

(Foto: Manoel Borges)

Em 1930, o então governador da Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, de passeio pelo Recife, era assassinado enquanto apreciava as guloseimas da Confeitaria Glória, localizada no nº 318 da Rua Nova. “Eu sou João Dantas”, disse o antagonista em seu prólogo, adentrando o majestoso prédio na esquina com a Rua da Palma, antes de atirar contra João Pessoa.

O chofer do governador, coadjuvante até o momento, correu ao socorro do patrão e disparou contra o assassino. A locação onde ocorrera um dos acontecimentos mais emblemáticos e de consequências para o país, a Confeitaria Glória, fecharia suas portas anos depois, mas a edificação ainda existe na Rua Nova.

(Foto: Manoel Borges)

Apesar de o crime ter sido considerado de cunho político, Dantas alegou que João Pessoa divulgou cartas íntimas de sua família em um jornal. Esse episódio foi o estopim para a Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, reescrevendo as próximas cenas do Brasil.

Tragédia familiar em quatro atos

Um pai truculento, sua única filha e um amante encantador. São esses os personagens principais de um dos mais famosos e aterrorizantes crimes cometidos na Rua Nova. Conta-se que, no final do Século XIX, membros de uma família moradora de um charmoso sobrado envolveram-se em uma sinistra trama de amor, ódio e assassinato.

(Foto: Manoel Borges)

O patriarca, Jaime Favais, descobriu que sua única filha, Clotilde, estava grávida de Leandro, um boêmio do Centro do Recife. Leandro também era amante de Josefina, esposa de Jaime e mãe de Clotilde. Ao descobrir o emaranhado amoroso, Jaime manda assassinar Leandro.

Não conseguindo casar a filha grávida com outro, condena-a à morte, emparedando-a viva em um dos banheiros do sobrado. O caso, que ficou conhecido como a Emparedada da Rua Nova, foi relatado pelo escritor Joaquim Carneiro Vilela, em 1886. O sobrado de número 200, onde teria ocorrido o crime, ainda está lá e, hoje, abriga, na parte de baixo, uma ótica.

(Foto: Manoel Borges)

Muito se discute sobre a veracidade desta história. Alguns defendem que esta lenda urbana é um dos roteiros mais originais já criados no Recife, mas há quem garanta que as almas de Clotilde e seu bebê ainda rondam pela vizinhança.

Fatos ou mitos, as tragédias protagonizadas na Rua Nova atravessaram o tempo, eternizando a importância, o fascínio e o mistério que envolvem essa artéria, até hoje, tão pulsante do coração da cidade.

(Foto: Manoel Borges)

Por Manuel Borges

Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.

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