Caminhar pela Avenida Conde da Boa Vista, no Centro do Recife, definitivamente não é para os fracos. A empreitada requer preparo físico e, principalmente, emocional. Boa saúde mental e estresse controlado são fatores que devem ser levados em consideração nessa tarefa de desbravar a Boa Vista. ?

Acontece que no período andando pelo Centro, por mais curto que seja, você sempre será bombardeado por sons repetitivos vindos de todos os lados. Trânsito, falatório e músicas se misturam em uma espécie de mantra enlouquecedor entoado de uma ponta a outra da avenida.

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Some a tudo isso os criativos anúncios e propagandas do comércio local que, caso você não seja um monge hindu, dificilmente conseguirá administrar tanta coisa dentro da cabeça.

Então respira, concentra e acompanha esta listinha quase espiritualizada que o Coração da Cidade preparou com os 6 mantras que não saem da cabeça de quem frequenta a Conde da Boa Vista:

1. “Água mineral é R$ 1”

Vamos combinar que o sol escaldante do Centro do Recife pede hidratação compulsiva. Mas, acontece que a oferta de água mineral é tão grande que é impossível terminar de beber uma garrafinha antes que apareçam dezenas de vendedores oferecendo novamente o produto.

(Foto: Reprodução/Google Maps)

Você nem abriu a garrafa que tem na mão, mas o mantra da “água mineral é R$ 1” vai te acompanhar como um grude. ?

2. “É pesquisa, é? É óculos?”

E o que dizer do batalhão de vendedores posicionados estrategicamente nas esquinas da Conde da Boa Vista como se fossem verdadeiros monges entoando seu cântico espiritual?

(Foto: Reprodução/Google Maps)

Estrategicamente sim, pois a maioria das óticas fica nas ruas paralelas, e é preciso que o vendedor vá até a via principal recrutar o cliente com um mantra entoado que enfeitiça e te leva para as ruas transversais. ?

3. “Vamos fazer o cartão da loja?”

Não adianta dizer que tem restrição de crédito junto aos órgãos de proteção, porque eles não acreditam e te chamam para consultar. Vai que acontece um milagre, né?! E nem pense em dizer que já possui – eles pedem para conferir.

(Foto: Reprodução/Google Maps)

E se, por ventura, algum cartão for apresentado, existem vários tipos de upgrade que podem ser adquiridos. Ou seja: não tem como se livrar. Sempre haverá uma modalidade que você ainda não tem. ???

4. “Chip da oooooooooooooi, mil minutos de bôôônus, ativa na hoooooooora!”

Uma andorinha só não faz verão mesmo, nem sob o sol da Boa Vista. E a turma de vendedores de chip está aí para provar, espalhados ao longo da avenida, disputando cada cliente, com promoções que te fazem até pensar duas vezes antes de prosseguir o caminho. ?

(Foto: Reprodução/Google Maps)

Se há uma propaganda que mais se assemelha a um mantra tibetano e que não desaparece da sua cabeça, é a dos vendedores de chip. E na disputa para chamar atenção vale gritar, musicar as promoções e utilizar megafones. Por que não?

5. “Tatuagem e piercing!”

(Foto: Reprodução/Google Maps)

“É tatuagem, é, boy?” “Piercing, casal?”. Uma voltinha no Centro e os agentes dos estúdios de tatuagem, atuando como mestres budistas, operam estas frases em nosso inconsciente, abrindo chakras do convencimento pelo cansaço. Um dia depois você acorda com uma vontade inesperada de fechar um braço ou a perna com tatuagem. ?

6. “Esse hit é chiclete, na tua mente vai ficar…” 

Quem nunca chegou em casa com uma música na cabeça que ouviu durante o dia? E quando você escuta a mesma canção durante toda a extensão da avenida? Isso é possível ao caminhar na Conde da Boa Vista.

MC Loma já dizia e existem estudos psiquiátricos que comprovam isto. Chamado de earworms, ou vermes de ouvido, essas músicas que, muitas vezes não são nossas preferidas, ficam tocando intermitente em nossas cabeças, principalmente antes de dormir. ?

O mistério que ninguém sabe explicar é o motivo pelo qual as caixas de som das lojas do Centro executam a mesma playlist com 3 ou 4 músicas, repetidamente, durante o dia inteiro. Se é um sacrifício para os passantes, imagine para o funcionário?

Brincadeiras à parte, a gente tem mais é que agradecer e tirar o chapéu para todos esses trabalhadores e trabalhadoras que se dedicam e utilizam o seu poder de persuasão de forma tão criativa e quase ortodoxa, fazendo do Centro do Recife esse lugar barulhento e infernal que a gente tanto adora e não sabe viver sem. Só pode ser feitiço!

Por Manuel Borges

Jornalista matuto que trocou o gosto da cana pelo cheiro do mangue. Adora passear por locais, histórias, cultura, picos/festas/bares, personalidades e humor sempre tendo o Centro, o coração da Cidade do Recife, como tema. Instagram: @manecoborges.