Um problema parece não ter fim para quem precisa estacionar o carro nas ruas do Recife Antigo: a abordagem incisiva de alguns flanelinhas, muitas vezes acompanhada de extorsão e, até mesmo, ameaças (veladas ou não).

No início de 2015, a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano, realizou um cadastramento dos guardadores de carro, que consistiu na entrega de crachás e verificação de antecedentes criminais. No final de 2016, houve o recadastramento dessas pessoas.

(Foto: Thiago Ramos/PorAqui)

Atualmente, um ano e meio após essa última ação, o que se percebe é algo muito longe de uma organização e padronização, com “loteamento” de ruas e pressão para que condutores paguem o preço exigido pelos flanelinhas.

Vários são os relatos de pessoas que não se sentem à vontade ou em segurança com as constantes abordagens, principalmente quem trabalha na região. Diariamente há casos de constrangimento de ter que negociar quanto pagar ou até mesmo “driblar” os flanelinhas para evitar o insistente assédio.

Relatos

Danuza (nome fictício) trabalha no Recife Antigo e já foi vítima de abordagens. “É sempre de forma muito agressiva e incômoda. Você se sente invadido e com medo”, diz. “Um deles vive rondando. E o impressionante é que ele começa a cercar a gente, descobre coisas, e já veio me seguindo até o trabalho. Isso gera uma desconfiança, sempre intimidadora”.

“Já cheguei a ter que ir com um amigo meu até o carro, pra ver se evitava alguma abordagem. Quando chegamos, lá estava ele, encostado no meu carro, me aguardando pra cobrar”, continua. “Melhor cumprimentar do que fechar a cara e correr algum risco”, diz Danuza.

“Desde o ano passado, por conta da minha segurança, deixei de estacionar na rua, e pago quatro vezes mais pra estacionar no Paço Alfândega”, diz Letícia (nome fictício), que também já sofreu diversas abordagens. “A pressão que você sofre deles pra pagar o que eles querem é muito intimidadora”.

Ela contou que já foi ameaçada de ter o carro danificado por um casal de flanelinhas porque se recusava a fazer a manobra como eles orientavam. “Você não pode nem ir à polícia porque fica com medo que eles saibam que foi você e tenham alguma reação”.

Zona Azul

(Foto: JC Imagem)

Atualmente, existem 966 vagas de Zona Azul no Bairro do Recife. A cobrança de valor indevido pelas vagas, por parte de flanelinhas, também está entre as reclamações de quem frequenta a região.

A folha, que custa R$ 3, chega a ser utilizada por flanelinhas para extorquir, chegando, “na mão deles”, a R$ 5 e até R$ 10.

“Mesmo que você tenha o cartão de Zona Azul, eles te abordam para pagar por fora”, diz Danuza. “Eles dizem que é pra dar uma ajuda pra cuidar do carro”, continua. “Isso quando não dizem, em tom de ameaça, que não irão se responsabilizar caso algo aconteça, se você não pagar o valor que eles querem”, completa.

Soluções

As situações mostram que o recadastramento dos flanelinhas, no final de 2016, não surtiu qualquer efeito. Empreendedor do Porto Digital, Luciano Meira é um dos críticos da medida. “O que eu sinto é que ninguém consegue criar nada para solucionar essa situação. O que fizeram foi dar crachá para eles, e só. Isso não é solução, é a manutenção de um problema”, diz Meira.

“Acredito que haja duas grandes saídas para isso: obviamente, a penalidade ao constrangimento. E a outra seria um treinamento e uma seleção dessas pessoas para atuar em outras funções, mais produtivas”, acrescenta.

(Foto: Thiago Ramos/PorAqui)

“Acredito que tenha gente bacana no meio e que queira mudar de vida. Eu quero apostar que uma fração deles desejaria ter uma atuação mais produtiva na sociedade. Qualificação seria uma forma. Mas ninguém pensa nisso, não há mínima discussão sobre”, completa Meira.

PCR lava as mãos

Em contato com a Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano do Recife – que, entre outras atribuições, deve disciplinar de que forma o espaço público urbano é utilizado –, o PorAqui foi informado de que a única responsabilidade da Prefeitura do Recife no caso foi a realização do cadastramento e recadastramento dos flanelinhas.

Por telefone, a assessoria de imprensa disse que o trabalho foi feito por solicitação da Polícia Militar de Pernambuco, pelo “know-how que a Prefeitura tem para realização desse tipo de cadastramento”. E a fiscalização? Sequer existe por parte do executivo municipal.

“Quantos foram os flanelinhas recadastrados?”, também perguntamos. Curiosamente, o órgão que fez o levantamento não possui esse número. Mais uma vez, jogou a responsabilidade para a PM-PE, informando que todos os dados foram repassados para o órgão estadual.

O que diz a PM-PE

A Polícia Militar de Pernambuco, no entanto, negou que possua o número de flanelinhas cadastrados. Em nota, informou que “cabe à PM-PE, nos casos em que há flagrante, de extorsão ou roubo, efetuar a prisão do suspeito e encaminhá-lo para a Delegacia de Polícia Civil, onde são tomadas as devidas providências legais”.

Em orientação à população, a PM disse que “a possível vítima deve procurar o policiamento mais próximo ou ligar para o 190, apontando o responsável pela extorsão, ameaça, dano ao veículo ou qualquer outra irregularidade, possibilitando que o efetivo conduza todos os envolvidos para uma delegacia para formalizar o ato ilícito”.

E acrescentou que “o policiamento é realizado no Recife Antigo por policiais da CIATur a pé, em segways, motocicletas e viaturas. Há, ainda, o reforço de unidades especializadas como o Batalhão de Radiopatrulha, BPTran, Cavalaria e outros. No bairro, funciona uma sede da CIATur, 24 horas por dia, onde as pessoas podem recorrer por ajuda a qualquer momento”.