No dia 21 de julho de 2018, um carro de som anunciava, pelo Recife, uma velha mensagem: “Tapacurá estourou!”. Alguns muros da cidade apareceram estampados com um lambe-lambe que trazia o mesmo aviso: ” Tapacurá estourou!”.

Muro nas Graças apareceu coberto de lambe-lambes (Foto: Paula Melo/PorAqui)

Foi justamente este alarme anônimo, anos atrás, que colocou o Recife no mapa do boato mundial, devido ao caos que ficou a cidade naquele fatídico dia 21 de julho de 1975. Agora, ele – e a própria represa – viram exposição pelas mãos da artista plástica carioca com ascendente em Pernambuco, Joana Passi. Arruar Tapacurá invade, perdão pelo trocadilho, a Torre Malakoff, no Bairro do Recife, desta sexta, 4 de janeiro, com abertura às 19h, até o dia 28 de fevereiro.

A artista ocupa as seis salas da torre com obras que foram resultado de uma intensa pesquisa sobre Tapacurá – a represa que nunca estourou, mas foi como se  fosse. Vídeos, desenhos, mapas, pinturas e instalações: trabalhos que surgiram do esforço da artista em criar uma lembrança de Tapacurá antes de Tapacurá e o boato.

Cartaz da exposição que depois foi pendurado no alto da Torre Malakoff

Durante todo o mês de dezembro, Joana Passi montou um verdadeiro laboratório no espaço cultural. Boa parte das obras foram produzidas lá mesmo. A curadoria da exposição é de Juliana de Moraes.

O projeto surgiu dentro do doutorado que faz em Literatura na PUC Rio, onde se volta para “memórias, histórias, narrativas rastros”. O pai tinha morado na região que foi inundada para a construção de Tapacurá, em um lugar chamado São Bento.

“Essa região era muito rica, deveria ser um patrimônio histórico e ambiental, com várias reservas de pau-brasil. Quando cheguei e vi aquela paisagem toda inundada com a torre da igreja, comecei a pesquisar as histórias sobre esse lugar e me deparei com o boato de Tapacurá”, conta. Na exposição, o boato tem espaço, mas um outro lado de Tapacurá também será estampado nas obras.

O boato

Em julho de 1975, mais precisamente nos dias 17 e 18, o Recife, mais pobre do que ele é hoje, sofreu uma enchente de grandes proporções: 80% da população ficou embaixo d’água, ainda outros 25 municípios que ficam à margem do Capibaribe também foram atingidos. 107 pessoas morreram. Havia milhares de desabrigados.

A capital pernambucana ficou isolada do restante do país por dois dias, com as estradas de ferro destruídas. A chuva era muita, também não se arriscava voar. O povo estava fragilizado e um milagre – ou um boato – era tudo o que se podia esperar diante de tamanho caos.

Pois foi o que aconteceu. Não se sabe de onde surgiu, não havia redes sociais, nem telefone celular, mas de repente, na manhã do dia 21 de julho, voando com as asas cheias de lama, surgiu rasando baixo, com a velocidade do som, um “Tapacurá estourou!”. Saiu de uma boca, depois de duas, logo de milhares. Nesse boato coube a força de 94 milhões de metros cúbicos de água, que era a capacidade da barragem. A cidade seria destruída. Uma Babilônia nordestina.

E se você acha caos trânsito-assalto-ônibus lotado-dinheiro pouco-vendedor de loja oferecendo cartão na Conde da Boa Vista, desculpe, mas seu caos é pouco. Era gente subindo em árvore, carros pegando contramão, gente saltando de ônibus, com menos medo da morte do que de uma mentira.  Tinha gente que não acreditou no boato e que, muito menos, tinha medo da morte – e aproveitou para roubar, saquear as lojas. Vai que.

O boato só teve fim quando o governador de Pernambuco, José Francisco de Moura Cavalcanti, teve que avisar reiteradas vezes de que Tapacurá passava bem. E se ele estava vivo é porque era verdade. Foi o que ele disse. Mesmo assim, a cidade demorou um tanto para se recuperar da chuva e da história, que hoje é parte do folclore do Recife – e agora passa em exposição.

Arruar Tapacurá
Abertura: 4 de janeiro de 2019, às 19h
Visitação: até 28 de fevereiro
Horários: de terça a sexta, das 10h às 17h; sábados, das 15h às 18h; domingos, das 15h às 19h30; fecha segunda
Local: Torre Malakoff – Praça do Arsenal, s/n – Recife, PE
Entrada gratuita