A prática de enterrar os mortos é antiga, mas a existência dos cemitérios, como conhecemos, é mais recente do que se imagina. As primeiras necrópoles surgiram ao lado das igrejas, ou mesmo dentro delas, conferindo ao morto um repouso em local imaculado e garantindo sua passagem para um mundo melhor. Porém, problemas sanitários começaram a aparecer nos locais de sepultamento, que vieram a se agravar com as guerras e pestes. Logo, com a necessidade de destinar locais mais apropriados para enterrar os mortos, surgiram os primeiros cemitérios.

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O início não foi fácil. E em nossa história existem registros de repúdio ao sepultamento dos mortos nessas novas necrópoles, distante dos centros religiosos. O caso mais extremo que temos notícia é o da “Cemiterada”, revolta popular ocorrida em 1836 na Bahia, onde a população contrária à ideia do cemitério destruiu o equipamento recém-construído.

Com o tempo, os cemitérios viraram testemunhas históricas dos locais a que eles servem. A arquitetura de suas tumbas, a imponência de suas estátuas, os registros (muitas vezes poéticos) nas lápides tornam os cemitérios uma grande galeria a céu aberto. Além do mais, o valor social dos que ali estão, e que colaboraram em vida para a construção da sociedade, é outro ponto que chama muita atenção nos cemitérios.

Você tem medo de quê?

Mas com uma riqueza social, arquitetônica e urbanística tão grande, porque ainda temos medo de visitar os cemitérios?

Infelizmente o medo é o grande limitador. Ainda associamos muitos as necrópoles a um lugar macabro e tenebroso, e que só vamos quando realmente precisamos enterrar um parente ou amigo. Na contramão desse pensamento, cemitérios do mundo como o da Recoleta em Buenos Aires recebem um número imenso de visitantes em busca de um pouco de história e de prestigiar figuras históricas que ali estão.

Se você leu esse texto até aqui e começou a perder o medo, que tal fazer uma visita aos cemitérios do Recife?

Cemitério dos ingleses

Foto: Juntando Mochilas/Colaboração

Os súditos da rainha da Inglaterra têm um cemitério para chamar de seu. Com a forte presença de ingleses do século 19, e acobertados pelo tratado de Navegação e Comércio estabelecimento entre Inglaterra e Portugal, houve a necessidade de criar um cemitério para os mesmos, já que a maioria não era católico, mas protestante.

Em 1815, o príncipe regente Dom Pedro II cede um terreno “de 120 palmos de frente por 200 de fundo” para construção dessa que viria a ser a primeira necrópole do Recife. Dentre as lápides dos ingleses há também outros que foram impedidos de ser sepultados pela Igreja Católica por seus ideais, como o caso do General Abreu e Lima.

Apesar do aspecto fechado, o cemitério pode ser visitado mediante agendamento prévios das 07h às 17h. Sepultamentos ainda acontecem, mas são poucos. Até a data de nossa visita (agosto de 2017) apenas quatro sepultamentos tinham acontecido naquele ano, por coincidência o último foi no dia que estivemos no cemitério.

Cemitério de Santo Amaro

Foto: Juntando Mochilas/Colaboração

Maior necrópole de nossa cidade, o Cemitério do Bom Jesus da Redenção de Santo Amaro das Salinas está no bairro de mesmo nome e foi inaugurado em 1851. Obra do Engenheiro Mamede Ferreira, tem formato octagonal com uma capela no centro em estilo gótico (é comum todo cemitério ter uma capela, para “compensar” o fato de não estar anexado a uma igreja).

Possui vários mausoléus imponente como o de Joaquim Nabuco e Manoel Borba, e alguns mais modestos como o de Chico Science ou mesmo de Eduardo Campos. Para facilitar a visita (diariamente das 7h às 17h), a Emlurb instalou recentemente um painel com o mapa das principais lápides da necrópole.


Jayme é engenheiro, cervejeiro e nerd old school. Nívia é jornalista, leitora compulsiva e mãe de um labrador chocolate. Juntos, eles amam viajar e são os ‘travel writers’ responsáveis pelo blog Juntando Mochilas.

 

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