Chegar até a Praça do Sebo, no Centro do Recife, é uma experiência sensorial. Andar em meio aos ambulantes que vendem desde apetrechos para celular a potes de paçoca, pegar  panfletos que oferecem piercings na hora e implantes dentários, ouvir os sons das buzinas e das vozes que tentam competir por atenção.

Isso até chegar na esquina da Av. Guararapes e adentrar uma rua com vários botecos, daqueles bem a cara de Centro do Recife: cerveja e pitú, PF barato e mesas espalhadas na calçada. Um casal jovem, dos seus 20 anos, aproveitando a sexta-feira com um litrão aberto na mesa. Risadas e um brega gostoso que toca num carrinho de som: em vez de vender CDs, o rapaz vendia pen drives já com as músicas: “Aqui tem pra mais de 200 músicas e custa só 10 reais, vu? Funciona em tudo”.

Assim que se entra na praça, que na realidade é uma espécie de largo escondido entre as avenidas Dantas Barreto e Guararapes, tudo se acalma e entra no compasso cadenciado da leitura. O box de número dois deixa o radinho de pilha ligado o dia todo, sintonizado na Nova Brasil FM. Quando eu cheguei, era Caetano que tocava.

(Foto: Suzana Souza/PorAqui)

Barreira contra a realidade

Não sei bem se são as quatro árvores que cobrem todo o lugar e fazem uma sombra enorme, ou se os meros portões de ferro que separam os botecos da estátua do poeta Mauro Mota, localizada na entrada da praça, conseguem fazer uma espécie de barreira contra a realidade frenética do centro, mas o clima é calmo, é de antes, é de um centro da cidade que eu não conheci.

Dos 14 bancos espalhados pela praça, eu ocupava um, e um senhor, munido de sua pasta de couro feito a que eu via meu pai carregar antigamente, sentava despreocupado mexendo no celular. O resto do lugar vazio. Ou quase: vários gatinhos brincavam em meio às motos que usam a praça de estacionamento.

Dentro dos boxes onde ficam os sebos, os vendedores se distraem com seus celulares. Todo mundo imerso na tecnologia, menos um senhor parado, só olhando o movimento da rua. “Augusto Livros” o nome do box de Augusto, o mais antigo vendedor de livros da praça, que está ali desde que o local foi inaugurado pela Prefeitura do Recife em 1981.

(Foto: Suzana Souza/PorAqui)

Leitura à moda antiga

São 19 boxes ao todo. Cada um com quase todo tipo de livro: didáticos, paradidáticos, literatura, livros de graduação… Difícil é encontrar alguns exemplares da bíblia dos estudantes de Direito, o Vade Mecum. “Mudam demais, todo ano tem duas novas edições, não dá pra gente vender, perde rápido”, me conta Seu Carlos, do box de número 19. Ele também me mostra todo orgulhoso a parede que monta todos os dias com mais de 800 livros. “Demoro uma hora e quinze pra montar esse painel, mas ele chama atenção das pessoas, gosto de arrumar tudo bonito assim”.

Quando eu pergunto se seu Carlos lê algum daqueles livros do seu sebo, que somam mais de 5 mil exemplares, ele me responde que aí já é difícil, leitura de livro é um negócio meio complicado e que o ele gosta mesmo é de fazer palavra cruzada e sudoku, daquelas cartilhas de R$ 1,99.

Mas não demora muito e encontro um exemplar recente do Jornal do Commercio, em meio à antiga coleção Os Pensadores da Editora Abril, que fica numa mesinha ao lado da entrada do seu box. “Gosto de assinar o jornal pra saber das coisas. Geralmente eu leio e vou repassando pros outros colegas dos outros sebos”. No meio da leitura analógica, o meio de informação analógico: o jornal impresso.

Em meio às árvores, os prédios que rodeiam a praça. (Foto: Suzana Souza/PorAqui)

Ler mais e mais

De 1995, quando seu Carlos começou a vender livros na praça, até os dias de hoje, as mudanças são enormes. “Antigamente tinha gente que vinha procurar livros de literatura, hoje a gente vende mesmo só no começo do ano, quando o pessoal vem atrás de livro didático. Tem que fazer render pro resto do ano todo”.

Enquanto os boxes não são frequentados, o banheiro público que fica no centro da praça é movimentado. Um senhor de cabelos brancos faz a barba com uma daquelas Giletes amarelas, enquanto cantarola as músicas saídas do radinho de pilha do box dois. A sensação que se tem é que a Praça do Sebo ficou perdida no tempo.

Mesmo com a reforma feita em fevereiro de 2017, que recuperou o piso de pedra portuguesa, reformou o banheiro público e melhorou a iluminação, o local segue esquecido. Algumas ações já tentaram revitalizar a praça, como o Abril Pro Livro na Praça do Sebo e a Comemoração do Dia do Livro, mas tudo sem um sucesso duradouro.

A solução, talvez, não seja apenas cobrar do poder público maior atenção com o local. Temos um problema muito maior em mãos: a leitura. A última pesquisa do Retratos da Leitura no Brasil, feita em 2015, promovida pelo Instituo Pró-Livro e realizada pelo Ibope Inteligência, aponta que na região Nordeste apenas 51% da população é formada por leitores ativos, que leem pelo menos um livro ao ano. Como não há recortes por estado, não dá pra saber ao certo em que posição Pernambuco está.

Em tempos em que a história do Brasil se perde nas chamas e candidatos falam na extinção do Ministério da Cultura, só nos resta aproveitar um ambiente bonito que nem o da Praça do Sebo. E ler mais e mais e mais.