“Precisamos aprender a reconhecer quando não estamos no nosso melhor momento e definir uma estratégia para correr bem”. A frase do atleta e coach esportivo Nuno Trigueiro traz uma mensagem fundamental para atletas jovens e veteranos: ter maturidade na hora dos treinos para garantir uma boa prova. Nuno, que teve um resultado formidável na Maratona de Londres, faz um relato pessoal e inspirador para todos nós de sua experiência, da largada à linha de chegada. Confira na íntegra.

Maratona de Londres, por Nuno Trigueiro

Pessoal, acabei de ler a “transmissão” e queria agradecer a cada um de vocês pela torcida. (Hoje, dia da prova) foi um dia que treinei muito mentalmente para ele, pois fisicamente até tentei – mas não conseguia fazer o que estava programado, pois as canelas não aguentavam.

Quando fazia uma semana boa de treinos, a outra mal conseguia treinar e tinha que tirar o pé e adaptar o treino para seguir em frente. E graças a Deus deu tudo certo.

Foi tudo dentro do programado. Aliás o programado era (correr em) umas 3:10. Foi melhor um pouquinho (KKK). Mas não pensa que foi fácil não. Foi dureza. Enfim, meta alcançada.Agora é descansar o corpo. Recuperar. E rumar para novos desafios.

A LARGADA
Sensacional a largada. Estava próximo a elite e vendo os caras. Na hora do hino inglês todos os corredores de boné, tiraram o mesmo em reverência à Rainha.
Confesso que me emocionei, fui às lágrimas e agradeci a Deus estar vivendo aquele momento.

A ESTRATÉGIA
Sabia que não tinha tido treino suficiente para baixar meu tempo. E sabia que as condições de temperatura também não ajudariam nisso. Decidi correr 14k entre 4:25 e 4:30. Do 15 ao 28k entre 4:20 e 4:25.
E os 14k finais ia ver como o corpo ia reagir, mas a intenção era crescer o ritmo e fazer (o percurso) entre 4:18 e 4:20. Se eu aguentasse.

Isso é uma coisa que precisamos aprender: reconhecer quando não estamos no nosso melhor momento e definir uma estratégia para correr bem. Tenho ouvido de vários de vocês, nas reuniões pré-prova, quando pergunto qual tempo quer fazer (na competição). As respostas sempre são: “Quero abaixar meu tempo”. O pior é q o aluno sabe que não está 100%, mas quer fazer e sair aloprado para tal. E acaba quebrando.

Precisamos mudar isso, pois gera frustração. Hoje sabia que não estava 100%. Usei uma estratégia de começar mais lento respeitando minha fase, pois se corresse de cara forte ia quebrar bonito, mas enfim…
Tudo na vida é um aprendizado.

COMO ACONTECEU

Larguei correndo focado no pace (ritmo) e meu relógio estava o tempo todo em 4:22 de média geral. Passei os 5k com 22 os 10k com 44 e assim fui. Na verdade mais forte que o planejado. Só que a prova é quase toda em ruas estreitas de apenas duas faixas. E em muitas ocasiões você fica literalmente espremido mesmo. Foi aí que sofri, por exemplo, no km 14 para o 15km que era para manter ali a estratégia, pois agora a mesma era seguir em 4:22 até o Km 28. Problema meu que comecei mais forte. Mas nesse pace do 14 para o 15k fui pra 4:30.Enfim… Consegui manter o ritmo que meu relógio sempre estava até o km 28 em 4:22.
Aí me sentia super bem. E resolvi apertar o ritmo para encaixar o Sub 4:20 de ritmo e correr entre 4:18 a 4:20 seguindo a estratégia inicial.

Sendo que essa parte final da prova pegamos muito vento contra além do sol forte. Mas mesmo assim fui. Apertei o ritmo e comecei a passar um monte de gente. E fiquei imaginando vocês na torcida em Recife pelo zap (WhatsApp). Eita o tio tá crescendo… melhorando o ritmo. Mas aí meu relógio começou a pirar.

Aumentei o ritmo mesmo com o vento e as pessoas cada vez mais ficando pra trás. Vários (atletas) sendo atendidos pela equipe médica. Pra vocês terem uma ideia, os dois pacemakers de 3:00 quebraram. Passei um no 28 e o outro no 34. Enfim meu relógio começou uma variação monstra que me desorganizou. Ora ele mostrava 5:10, daqui a pouco ele aparecia 3:46. E eu forçando mas sem saber em que ritmo estava. Aí rolou um ritmo abaixo. De 4:10 eu disse agora lascou. Vai produzir ácido lático demais esse ritmo pois a meta era 4:18. Quando passou do km 37 minhas pernas começaram a travar e dar sinais de câimbra. Segurei um pouco o ritmo médio geral que já era de 4:19 no meu relógio. E fui seguindo mantendo a postura e procurando administrar a velocidade pra não ter câimbras. Mas ela me persegue.

Qdo cheguei em frente na lateral do Palácio de Buckingham, há 350m da chegada, ela (a câimbra) veio na perna direita. Parei na hora. E não acreditei. Alonguei e segui devagar, aos pouquinhos, peguei a reta da linha da chegada e terminei a prova. Foi dureza e estou todo quebrado aqui. Nada de comemoração pois vou comer algo e depois fazer as planilhas de vocês
Beijo no coração e valeu a torcida.
Tenham certeza que enquanto corremos ficamos pensando no que vocês estão escrevendo aqui (no Instagram?)
Valeu! Habemus Mandala! Adorei…

LONDON MARATHON
RESULTADO OFICIAL

33.807 concluíram a prova
21.405 homens
12.402 mulheres
92 Brasileiros

Meu resultado
1.497o. geral da prova
1430o. entre os homens
163o. na categoria 45-49 anos
12o. Melhor brasileiro da prova
1o. do Brasil na categoria 45-49 anos
Tempo oficial: 3:05:22

Por Carlos Alexandria (Triatleta, professor e empresário) e Mariana Lobo (Corredora, jornalista e empresária).