Semana passada tive o azar, ou grande sorte, de ter o pneu do meu carro furado. Não tive dúvida, assim que percebi dei meia volta e fui em direção à borracharia do Tomas.

Chegando nela, fui recebido por ele numa vestimenta bem heterodoxa. Havia uma espécie de colete de lantejoulas prateadas colado em seu corpo que se mesclava com umas sandálias douradas estilo imperador de Roma. Um pouco da sua barriga saliente saltava das frestas da roupa.

Em suma, era uma espécie de Ney Matogrosso king size. Havia um quê de elegância feminina e um quê de destrambelhamento gonzo.

O amor em tempos de graxa

Achei aquilo o máximo, concluí que Tomas havia decidido preparar sua borracharia para o Carnaval e já estava no clima da festa pagã. Além da roupa exótica de Tomas, havia algumas tiras de papéis prateados decorando o teto do estabelecimento.

Desci do carro sorrindo e comentando que não sabia da sua paixão pelo Carnaval. Ele disse: “Cara, gosto de Carnaval sim, mas se você está falando isso por causa da minha roupa, não se trata de Carnaval, agora virei ator, me chame de Estela, Estela Atoar” e abriu uma gargalhada.

Eu não entendi nada e certamente minha expressão denunciou isso, pois ele imediatamente começou a me explicar o contexto.

Sorte e arte

Relembramos a última conversa que tivemos quando ele comentou que gostaria muito de fazer um curso profissionalizante, desenvolver novas competências para melhorar de vida. Ele disse que no ano passado iniciou um curso técnico à noite num lugar relativamente próximo de casa, mas que um mês e meio depois percebeu que não tinha aprendido nada que pudesse utilizar no seu dia a dia e tinha ficado impaciente.

Chegou a comentar que colocavam muita matemática na aula e depois de velho um homem não aprende mais nada com a razão, se o coração não guiá-la. Foi quando ele disse que um certo dia chegou atrasado e viu numa sala próxima uma turma tendo aula de teatro.

Ele se encantou com aquilo. Lembrou que quando criança assistia muito os Trapalhões e sonhava em ser artista de circo. Mas que desde cedo trabalhava ali naquela borracharia e aos poucos o sonho foi tachado por ele mesmo de devaneio e em seguida totalmente esquecido.

Então ele me perguntou se eu queria a troca de pneu com vida ou sem vida. A troca com vida acompanhava a performance dele e custava R$ 10,00 mais caro do que a sem vida, que era a troca de pneu tradicional. Optei pela troca performática e não me arrependi.

Tomas mexeu em alguma coisa lá dentro e de repente começa a tocar Bohemian Rhapsody do Queen em máximo volume numa caixa de som instalada no teto da borracharia. Ele dá três giros em seu próprio eixo, joga a perna pra cima, faz movimentos performáticos com os braços enquanto retira o pneu do meu carro, gira o pneu inúmeras vezes, sobe em cima dele num salto bem cadenciado e faz todo o serviço nesse tom sem sair do ritmo da música.

Com direito a algumas caras e bocas numa mistura de Mussum e Zacarias ao mesmo tempo. Eu ri, me diverti e por duas vezes confesso que me emocionei.

Ele me confidenciou que nessa brincadeira o faturamento dele já duplicou em apenas 3 meses e que nunca se sentiu tão feliz, pois agora não é só dono de uma borracharia, mas também tem um teatro a sua disposição. Encerramos nossa conversa com ele dizendo, “agora meus pneus têm vida e também vendo esperança e alegria”.

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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