Por Bruno Albertim, do JC

Com a pop art dos anos 1960, a própria arte, de certa forma, deixava de “existir”. Não precisava ter filiação, coerência, história. Com a mistura de técnicas, suportes e estilos, tudo se tornaria permitido – inclusive o fim calculado da autoralidade que marcava e definia a arte como produto de uma subjetividade em estado de iluminação.

No Recife, um coletivo recente de artistas visuais radicaliza, com um resultado vigorosamente expressivo, o fim da necessidade de um autor à frente de uma obra específica. Nesta quinta (16), na Galeria Janete Costa, no Parque Dona Lindu, o coletivo Vacilante abre sua primeira exposição pública. Uma mostra que impacta tanto pelo resultado como pelo processo.

Pintura como suporte predominante, a exposição Inferno Ostentação reúne, em 45 telas de tamanhos vários, técnicas como óleo, acrílica, spray automotivo, abstração e figurativismos. Com a força de murais hiperurbanos, pinceladas vigorosas como extensão de sinapses em profusão trazem cores e informações numa saturação típica da contemporaneidade.

Nenhuma das telas é assinada por um dos quatro componentes do grupo. Como numa banda orgânica de rock’n’roll em que os músicos executam seus instrumentos uns sobre os outros para que o resultado seja algo tão coletivo que já não pertence a uma individualidade, os quatro “vacilantes” pintam uns sobre a pintura dos parceiros. Uma pintura com ponto de partida e parada incerta.

“O quadro é pintado num coletivo sem planejamento, sem o dever de preservar ou apego ao que o outro pintou, sem o direito de negociar ou conciliar”, diz o também diretor de arte Alexandre Pons, que, há três anos, reuniu-se com outros três amigos, profissionais estabelecidos em outras áreas, para se expressarem artisticamente.

“A pintura, até pela facilidade de acesso aos materiais, nos pareceu o suporte mais adequado”, diz o também diretor de arte Heitor Pontes. Compõem o coletivo o professor de história da arte Rafael Ziegelmaier e o redator publicitário Luciano Mattos.

Luciano construiu conceitos como ponto de partida para os quadros. “Comecei a fazer experimentos com a junção de duas palavras que, juntas, adquirem um significado bem diferente de quando estão separadas. O erro é parte fundamental, por isso a importância do vacilo”, diz ele, sobre ideias como Inferno-gourmet ou infarto-ostentação como catalizadores.

Ao contrário do que estabelecem artistas de processo mais clássico dentro dos preceitos da arte moderna (Rodin, por exemplo, partiu de sua ideia anterior de Porta do Inferno para ir dando forma a seus personagens), o Vacilante faz do caminho o destino.

“O desapego faz a gente experimentar sempre. Todo quadro é apenas uma base para que a gente experimente sempre até que, num momento, decida que o quadro está pronto”, diz Luciano.

Com curadoria do também artista Aslan Cabral, da Casa Navio, os quadros estão todos agrupados numa única grande parede. A montagem reforça a velocidade de fluxo contínuo das obras. Num mundo em que o trânsito excessivo de informações dilui hierarquias e contornos, as narrativas do Vacilante, ao final, se organizam num caos confortavelmente familiar.

(Foto: Aslan Cabral/divulgação Casa Navio)

Serviço

Inferno Ostentação, do Coletivo Vacilante

Abertura nesta quinta (16), às 19h

Galeria Janete Costa, no Parque Dona Lindu

Até 31 de julho

Quarta a sexta, das 12h às 20h

Sábados e domingos, das 14h às 20h

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