A expectativa sempre é uma tela de Salvador Dalí, nunca é totalmente passível de toque, nunca é totalmente exata. Sempre está em processo de derretimento, construção e reconstrução, o que a torna difícil de ser plenamente correspondida ou solucionada.

Por mais que o encontro tenha sido satisfatório, o outro dia será uma incógnita, ao ponto de mudar completamente a satisfação constatada anteriormente.

Algo extraordinário pode se tornar perfeitamente comum no dia seguinte, talvez até deixe aquela impressão de que podia ter sido evitado e vice-versa.

Brasil: passado, presente, futuro

Expectativa é um constante processo de preenchimento sensorial, é o miolo do bolo da percepção.

O problema é que esse bolo é meio brincalhão como os montes de areia que montávamos na infância. Cada amigo arrancava um pedaço com a mão sem saber quando o bolo cairia. Em algum momento toda aquela coisa ruía e as crianças corriam atrás do responsável.

Expectativa e percepção são coisas fluidas, isso significa que sustentamos nossas vidas em cima de montes desmoronáveis.

Some-se a isso a expectativa do outro. Temos uma galeria inteira de encontros e desencontros agendados de acordo com os relógios derretidos de Dalí.

“A persistência da memória”, de Salvador Dalí

Reflexões para quem pensa em ‘dar o lavra’ de Recife

Lembro-me de um trecho da Insustentável Leveza do Ser, em que um dos personagens considera a experiência sexual algo sublime, mágico e, portanto, prefere tê-la no escuro. Mas, por vergonha de pedir para apagar as luzes, ele opta por fechar os olhos.

A amante dele não sabe o que se passa no seu íntimo, o que chega aos olhos dela é apenas a imagem de um homem que, segundo ela, se diminui como homem. Olhinhos fechados, caras e bocas, tal imagem ridícula acaba por impedi-la de sentir prazer.

Bacon

Ah, o sexo! Certamente o local onde expectativa e percepção são exercitados em seu limiar máximo. Essa eterna experiência coletiva individual. Muito bem pontuado, por alguém que não lembro quem, como um jogo de tênis com um paredão no meio. À distância parecem que estão jogando juntos, ao chegar perto, fica claro que estão sozinhos.

A essa altura você deve ter percebido que esse texto se propõe a refletir sobre expectativa. E assim sendo, é importante falar que não só de frustrações ela é feita, principalmente se houver diálogo entre a hora da espera e a hora da chegada. Ou seja, entre as pessoas.

O diálogo será sempre um facilitador do encontro, mesmo que esse encontro seja apenas consigo. É importante externalizar as coisas, colocar pra fora, conversar, expor, assim fica mais fácil lidar com o desejo e também aumentar as chances de sua concretude.

Por outro lado, diante de tudo que foi dito, é possível concluir que não gerar expectativas sempre será o melhor caminho. A propósito, se você souber como, me avise rapidamente. Certamente esse é um daqueles atalhos mágicos rumo à felicidade.

Nada mais certo do que o ditado, “crie porcos, mas não crie expectativas, assim ao menos podemos comer bacon”. Deixar-se levar e seguir leve é por si só uma forma de realizar seus anseios, pois sem anseios não há o que realizar. Tudo o que vier será lucro.

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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